Após dois meses do estrondoso sucesso de ‘‘Casa dos Artistas’’, o maior comunicador do País, Sílvio Santos, reiniciou no último domingo a segunda versão do ‘‘reality show’’ que se tornou o grande fenômeno da TV brasileira dos últimos anos. Mantendo regras similares à primeira edição, a ‘‘Casa dos Artistas 2’’ traz doze candidatos ao prêmio ampliado para R$ 400 mil: as belas Syang, Ellen Roche, Mariana Kupfer, Tiazinha, Feiticeira, Cynthia Benini; além de André Gonçalves, Ricardo Macchi, Gustavo Mendonça, o rapper Xis, o performer Lulo e o cantor Mário Velloso.
Um dos grandes atrativos da primeira edição, razoavelmente mantido nesse novo formato, é o tom evidentemente apelativo que caracteriza os ‘‘artistas’’ da casa. Se por um lado é constrangedor acompanhar as lamentações dos modelos-atores-cantores que pretendem apenas o estrelismo imediato, há um lado sádico do público que quer ver esses produtos da mídia se digladiando em busca de um reconhecimento falso.
Nenhum deles é um artista no sentido exato do termo. Todos buscam o sucesso fácil, a permanência ad eternum na mídia. Todos sabem que o público na verdade quer apenas um estereótipo para ser cultuado, alguém para amar ou execrar. Foram esses os papéis destinados a Supla e Alexandre Frota na primeira versão. Um era romântico, idealista e se dizia sincero. O outro encarnava o bruto irracional que busca o sexo e demais distrações banais.
Quem consegue atribuir real interesse a essa ‘‘apresentação de realidade’’ é o homem por trás de todas as iniciativas do Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), o empresário Sílvio Santos. O grande pai da nação que Getúlio Vargas simbolizara (e que hoje FHC não consegue representar) cai facilmente na imagem do comunicador que sempre se mostra próximo do espectador. Percebam que ele fala com o público, mostra suas filhas no palco, permite estereótipos marginais em seus programas (a drag queen Nanny People, o dubla-tudo Marquito, o travesti Vera Verão e a doméstica Filó, entre outros). Ele mantém até um microfone arcaico sob seu terno, símbolo de uma tradição de entretenimento que sempre buscou as brasilidades do cidadão comum.
Não há constrangimento, nem do público, nem dos artistas que ali trabalham, em expor o fascínio que o brasileiro tem pelo dinheiro fácil (Topa Tudo por Dinheiro), pelo escatológico (Ratinho) e pelo frívolo e vulgar (Casa dos Artistas). Todos estão conscientes de que nada deve ser levado a sério. Mas incrivelmente, ao juntar personagens da mídia extremamente superficiais, Sílvio Santos consegue oferecer um entretenimento interessante. É mais ou menos a lógica de Dalton Trevisan em um de seus livros: a pureza só é atingida após o excesso de pecados. Em ‘‘Casa dos Artistas’’, o interesse se constrói gradativamente ao se aprofundar o contato com a tibieza mais funesta do ser humano, a falsidade mais presente, aquela que confirma a famosa lamentação de Salomão sobre a vida: ‘‘Vi que tudo era vaidade e aflições de ânimo’’. Prova disso é a vitória no Ibope que o SBT emplacou neste domingo: 42 pontos em média, contra 23 conquistados pela aristocrática (percebam que Roberto Marinho nunca se expôs ao público como Sílvio Santos) e nada atraente Rede Globo. Sob essa perspectiva, o SBT acaba apresentando um dos programas mais sinceros da TV brasileira - alegre, superficial e apelativo. Assim como brasileiro gosta.

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