Sílvia e Bruno chega incompleto ao Brasil
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 14 de janeiro de 1998
José Geraldo Couto 
Agência Folha
Ofuscado pelo brilho das duas Alices, só nas últimas décadas o romance Sílvia e Bruno tem conquistado o destaque merecido entre as obras de Lewis Carroll. O livro - ou melhor, uma parte dele - acaba de ser lançado pela primeira vez no Brasil, pela Iluminuras, com o título Algumas Aventuras de Sílvia e Bruno.
Aproveitando o caráter episódico e fragmentário do romance (publicado em duas partes, em 1889 e 1893), o tradutor Sérgio Medeiros selecionou 24 de seus 50 capítulos para a versão brasileira. É uma pena. Principalmente porque ficaram de fora também os esclarecedores prefácios de Carroll para as primeiras edições.
Ainda assim, é um livro obrigatório e delicioso. Em síntese, conta duas histórias paralelas - ou contíguas, como as definiu o filósofo Gilles Deleuze -, uma na esfera real da Inglaterra vitoriana, outra em mundos imaginários como o País do Outro Lado, o País dos Elfos e a Cãolândia. Entre as duas dimensões transitam o narrador - um professor de matemática aposentado - e duas crianças-fadas, Sílvia e Bruno. No País do Outro Lado, há uma conspiração para usurpar o poder; no lado de cá, o narrador ajuda um amigo tímido a conquistar uma dama. O nonsense do Outro Lado contagia a toda hora o lado de cá.
Os diálogos do capítulo A Festa de Despedida, por exemplo, parecem saídos de um filme dos Irmãos Marx. Para Lewis Carroll, palavras, seres e coisas são peças de um jogo que não tem fim.


