Arquivo FolhaHelena Meirelles:‘‘quero ir parando devagarinho. A cabeça não guarda mais nada’’Quando está compondo, Helena Meirelles toca dezenas de vezes uma mesma música, até decorar a sequência das notas no violão, recurso de quem jamais aprendeu a ler partituras. Mas ela se confessa cansada das andanças pelos palcos e das gravações e diz que vai abandonar os estúdios. A disposição criativa da ‘‘primeira-dama’’ da viola brasileira, que começou a tocar em 1933, está chegando ao fim. Há três meses, com um princípio de infarto, a violeira foi parar no hospital.
Já estão prontas 16 composições que Helena Meirelles quer gravar em seu próximo disco, o quarto de sua carreira, que deve ser o último trabalho em estúdio da violeira, da gravadora Eldorado.
Às vésperas de completar 75 anos - ela nasceu em uma ‘‘mística’’
sexta-feira, 13 de agosto -, Meirelles diz ter pressa. ‘‘Vou ver se faço logo o disco novo e fico só com os shows. Depois, quero ir parando devagarinho. A cabeça dessa ‘‘véia’ não guarda mais nada.’’ Os próximos shows acontecem em Campo Grande, em 4 de julho, e em São Paulo, no Sesc Ipiranga, no dia 16.
O reconhecimento público, tardio, só veio em 1993, quando Meirelles foi escolhida a ‘‘revelação do ano’’ pela revista norte-americana ‘‘Guitar Player’’, por meio de uma fita enviada por um jornalista brasileiro. Até então, a vida de Meirelles se limitava a beber cachaça e tocar nas zonas de meretrício do Mato Grosso do Sul e Presidente Epitácio, às margens do rio Paraná, onde mora até hoje com a família. Dessa época, guarda tantas histórias que pretende organizar, logo, um livro de memórias com sua autobiografia.
Também dessa fase, Meirelles guarda superstições como fazer sua própria palheta com chifre de boi, embaixo de uma árvore, antes do nascer do sol. A fórmula artesanal da fabricação, segundo ela, é o que diferencia o som da viola. ‘‘Minha música é diferente porque o som não sai das cordas, sai da palheta. O pessoal diz que a minha palheta fala’’, conta.
Nos fundos da casa - um presente da gravadora -, Meirelles montou um estúdio, em que estão espalhados seis violões, inclusive o Gibson Dobro, que ela considera uma relíquia. Antes, ela morava em uma casa alugada. ‘‘Agora eu tenho a minha responsabilidade, sustento a família, mas só toco quando dá vontade. Aqui, só mando eu. E Deus.’’
O disco anterior da violeira, ‘‘Raiz Pantaneira’’, finalizado em outubro do ano passado, com a participação do cantor sertanejo Sérgio Reis, vendeu 25 mil cópias, um número considerado satisfatório pela gravadora. Os outros discos, ‘‘Helena Meirelles’’ (Eldorado, 95) e ‘‘Flor da Guavira’’ (Eldorado, 96), venderam, juntos, 60 mil cópias, segundo números da gravadora. ‘‘Quero ir para o estúdio logo, mas o pessoal da gravadora acha que ainda é cedo, porque nós gravamos no ano passado’’, diz.
Entre as novas composições, já estão prontos quatro sambas, a releitura de uma música de Carnaval e vanerões, com uma tocada mais dançante, resultado da influência da onda de forrós e também das queixas do público. ‘‘Alguém já falou que na minha música é tudo igual. Esse pessoal não ‘bola’ a pequena diferença de uma para outra. Para mim, tem muita diferença.’’ A violeira guarda a surpresa para um dos sambas, que ela promete tocar utilizando só uma corda do violão, o que diz não ser segredo. ‘‘Toquei baile no Mato Grosso com duas cordas, e ninguém percebeu. As cordas iam quebrando, e eu continuava firme.’’
Embora queira um disco para ser mais tocado e dançado, Meirelles resiste em incluir outros instrumentos, além dos dois violões e do baixo que a acompanham.
A violeira só abriu uma concessão em ‘‘Flor da Guavira’’, que tem Djalma Correia na percussão e Toninho Ferraguti no acordeão. Quando puser ‘‘a viola no saco’’, como ela brinca, Meirelles quer ficar em casa, cuidando das plantas e das bonecas -ela tem uma coleção espalhada pela cama.
O supervisor artístico da Eldorado, Kid Vinil, vem conversando com Meirelles sobre o novo trabalho, mas, por razões de mercado, só vai chamá-la para o próximo disco em 99, para evitar o desgaste de lançamentos sucessivos.
Está nos planos da gravadora incluir instrumentos, possivelmente sanfonas, no próximo disco da violeira. Para Vinil, Meirelles é hoje ‘‘a Clementina de Jesus’’ da gravadora, fazendo referência à sambista que foi descoberta nos morros cariocas nos anos 70.

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