Signos da contemporaneidade
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de março de 2006
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
A pichação, quem diria, agora faz companhia ao graffiti como uma das expressões artísticas da contemporaneidade. Essa, pelo menos, é a idéia defendida no recém-lançado livro ''Ttsss...A Grande Arte da Pixação em São Paulo, Brasil''.
A obra, publicada pela Editora do Bispo, chega ao público em edição bilíngue reunindo textos, fotos e tipologia gráfica. Foi organizada por Daniel Medeiros, o Boleta, integrante da Vício, uma das gangues de pichadores mais ativas e antigas (foi criada em 1989) da capital paulista.
O ''ttsss'' do título é o som do barulho do spray. O volume adota a grafia ''pixação'' em vez de ''pichação'', desrespeitando a norma culta para aderir ao alfabeto dos pichadores. A atitude controversa começa aí e ganha voltagem ao apregoar contrariando o senso comum que as inscrições, logotipias e traços revelam muito mais do que apenas rabiscos incompreensíveis, poluição visual e vandalismo.
Tais signos constituiriam, na verdade, ''uma criação gráfica original e sofisticada'', desde que vistos fora de seu contexto habitual. Quem afirma é a artista plástica e sócia da Editora do Bispo, Pinky Wainer, em um dos textos incluídos na obra. Ela acrescenta que não pretende fazer nenhuma apologia do fenômeno, mas estudá-lo e documentá-lo.
Foi Pinky, aliás, quem decidiu publicar o livro depois de conhecer o acervo pixográfico de Boleta. Este mantinha uma agenda recheada de fotos de pichações, documentadas entre 1988 e 1989. O livro reproduz dezenas delas, além de acrescentar outras tantas, mais recentes, clicadas pelo fotojornalista João Wainer, que também assina um texto.
Algums fotos foram feitas com os pichadores em ação. Há, inclusive, um flagrante em que Boleta sapeca o nome de sua gangue numa mureta. ''Poucos esportes de ação liberam tanta adrenalina quanto o rolê de um pixador'' anota João Wainer. ''Se for pego pela polícia, volta para casa com a cara toda pintada pelo próprio spray e ainda toma uns tapões na orelha, daqueles de mão fechada, que alguns policiais adoram dar em quem não está podendo se defender. Se for pego por um morador, pode levar tiro e morrer isso sem falar no risco de cair quando escala prédios enormes pra escrever o nome no último andar sem nenhum equipamento de segurança''.
A obra traz imagens do Centro, de bairros como Pinheiros e Vila Madalena e também da periferia paulistana. Pelas fotos, é possível perceber tanto a disputa por território quando uma gangue avança seus hieróglifos sobre as assinaturas dos rivais quanto a ousadia dos pichadores no qual contam pontos a interferência em locais improváveis. O livro inclui uma crônica do colunista Xico Sá, que descreve os pichadores como ''os novos Gutembergs, reiventores dos tipos gráficos das metrópoles''.
Nas últimas páginas, o volume apresenta o alfabeto dos pichadores trazendo à luz as variantes dos ''garranchos'' de A a Z, algo inédito no mundo. Em seu texto, Pinky Wainer celebra os novos transgressores. ''No século passado, Andy Warhol dizia que no futuro todos teriam 15 minutos de fama. Agora que chegamos ao futuro, tudo é consumido e descartado em duas edições de alguma revista semanal. Poucas são as formas de arte descompromissadas com o sonho da fama e da grana. O pixo começou assim. Espero que ao serem domados pelos poderes públicos e incorporados ao circuito oficial da arte inevitável esses meninos não percam a atitude e a noção de que só o que é coerente sobrevive''.
O livro será lançado simultaneamente no Brasil e nas cidades de Berlin, Madrid, Paris, Londres e Nova York. Vale dar folheada em suas páginas e refletir sobre esse modo pouco convecional de olhar para os muros, paredes e tapumes da cidade.
Serviço:
- Livro ''TTSSS A Grande Arte da Pixação em SP/Brasil''. Organizado por: Boleta. Editora do Bispo. Edição bilíngue. Págs: 152. Preço sugerido: R$ 68,00. Mais informações e vendas no site www.editoradobispo.com.br.


