Ilmar Carvalho
Especial para a Folha2
De que vive a música? Esta é uma das questões que o mestre alemão da sociologia da música, Alphonz Silbermann, desenvolve em sua obra ‘‘Estructura Social de la Musica’’. Fenômeno social cada vez mais onipresente na vida do homem, viva onde viver, Silbermann acentua que a própria comunidade musical, historicamente, tem-se agrupado - corais, quartetos, orquestras, conjuntos - naquilo que o autor designa, com muita propriedade, de ‘‘instinto de rebanho’’. Mais recuadamente, já os primeiros habitantes da Terra produziam sua sinalização sonora com os pés, as mãos, com a voz. A propósito, revela o compositor estudioso Robert Jourdain, ‘‘que o sentido da audição tem 300 milhões de anos’’, embora o refinamento da arte musical exista apenas há um centésimo de milésimo desse período.
De que vive a música? O Festival de Música de Londrina, nos 13 dias em que transformou a cidade numa caixinha de música, respondeu a essa pergunta com a ratificação da existência do ‘‘instinto de rebanho’’, referido por Silbermann, nos mais de dois mil participantes diretos do fato social. Indiretamente, registrou-se a participação do universo populacional de 500 mil almas da chamada Grande Londrina, numa região que agrupa mais de 80 municípios, aproximadamente. Praças, ruas, empresas, estádio de futebol, escolas e auditórios foram tomados de assalto por uma sempre bem vinda massa sonora que, por sua vez, multiplicou-se através da mídia.
O festival de Teatro da Cidade já atrai as atenções do país e do exterior. O evento musical, já em sua 19ª edição, segue o mesmo caminho ombreando-se com os mais respeitados do País: Campos do Jordão, Juiz de Fora, Ouro Preto, Itu. Se o governo estadual, a prefeitura, a universidade local continuarem mantendo o compromisso de materializar os FML vindouros, os frutos e o retorno colhidos serão de uma ordem que não se poderá aquilatar. Dos mais de 45 festivais mais importantes do mundo, no campo musical, a continuidade, no tempo, é uma característica que chama logo a atenção.
O de Bayreuth, foi criado por Wagner em 1876 e o de Salzburg, cidade natal de Mozart, teve início a partir de 1842, ao passo que o de Birmingham data de 1786. O festival de Munique foi criado no verão de 1875, o de Leeds, em 1858. Já o de Ravínia (EUA) é de 1936 e o de Savonlline (Finlânida) é de 1907, e o de Verona (Itália) começou em 1913. Há mais, infinitamente mais encontros musicais e, bem assim, concursos para intérpretes no mundo inteiro.
A reunião musical que há 19 anos se faz em Londrina, ressaltada a característica pedagógica (cursos, palestras, etc), na sua continuidade vai atingir um ponto importante que é o de formação de público para a audição musical, aspecto inexistente no país, já que música não faz parte do currículo escolar do primeiro e segundo graus. É um bom público musical que sustenta a vida musical de uma cidade.
Por fim, quero pôr na berlinda a capacidade da organização musical do maestro Norton Morozowicz com sua larga experiência de músico de estante da OSB, durante 15 anos, criador, no início da década de 80, da famosa Orquestra de Câmara de Blumenau. E o que é importante: o regente valoriza os compositores e intérpretes do país, abre espaços para as partituras de nossos autores e coloca em plano elevado nossa extraordinária e criativa música popular.
Se tudo continuar como se espera, o nome de Londrina estará indissoluvelmente ligado, tanto no país como no exterior, à música e músicos de alta qualidade.

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