Sidney Lumet, um veterano diabólico
PUBLICAÇÃO
domingo, 09 de novembro de 2008
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Quem já alugou nestes primeiros quinze dias do lançamento deve estar ainda sob o impacto de um dos filmes mais envolventes e impressionantes dos últimos tempos, algo capaz mesmo de espantar todo o bolor e as teias de aranha que parecem se eternizar nas gôndolas das locadoras.
O título foi distribuído há três meses no País pela mesma Europa que agora lança o DVD, uma alternativa que não tirou nenhum pedaço do imenso talento contido na obra, um impecável drama criminal.
Resulta uma experiência muito interessante, comparar ''Antes Que o Diabo Saiba que Você Está Morto'' com ''O Sonho de Cassandra'', de Woody Allen, e também, de passagem, com os primeiros trabalhos de Quentin Tarantino, lá pelos anos 1990. Este novo filme do incansável veterano Sidney Lumet (84 anos cumpridos em junho), maestro do cinema clássico, responsável por títulos da grandeza de ''Doze Homens e Uma Sentença'', ''Sérpico'', ''Um Dia de Cão'' e ''Network'', narra uma história similar àquela de ''O Sonho de Cassandra'': dois irmãos muito diferentes entre si, o mais velho sempre manipulando o mais novo, precisam desesperadamente de dinheiro. E daí ao crime, é só uma tentação.
Uma vez seduzidos, eles se iniciam no crime em casos conectados às respectivas famílias. Os manos de Woody Allen (Ewan McGregor e Colin Farrell) às voltas com o tio rico e encrencado; os de Lumet (Philip Seymour Hoffman e Ethan Hawke) com os próprios pais. Mas para além das semelhanças entre ambas as tramas e alguns temas centrais, este precioso roteiro da estreante Kelly Masterson e a recente incursão britânica de Allen apresentam resultados decididamente opostos. Tudo o que em ''Cassandra'' era linear, plano e um tanto óbvio, embora palatável, em ''Antes que o Diabo...'' surge muito mais sólido, implacável, tenso e dilacerante.
''Before the Devil Knows You're Dead'' (um voto de louvor para a criatividade no momento do batismo, e melhor ainda, pela tradução brasileira fiel) está apoiado em rigoroso mecanismo de precisão de mestre relojoeiro. Ao espectador é dado ir e vir no tempo, conhecer os inesperados deslocamentos da história desde os diferentes pontos de vista de cada personagem, desconstruir os motivos e os resultados de cada fato até rearmar um quebra-cabeças de muitas peças e vários sentidos possíveis.
O roteiro com a afiada garra da novata Masterson não deve nada, por exemplo, a ''Cães de Aluguel'' ou ''Tempo de Violência''. Sidney Lumet, que não está para brincadeiras, transforma a história em apaixonante e desoladora tragédia grega sobre culpa e ambição/cobiça com personagens (e interpretações) recheados de matizes, contradições, dilemas morais e densidade psicológica. Ah, e tudo isso entremeado com o apelo (aqui no ótimo sentido) da ação, para aquela parcela de público que a considera indispensável.
Philip Seymour Hoffman faz o irmão maior, Andy, executivo e dependente de drogas que trabalha em corporação dedicada a negócios imobiliários. Nos últimos tempos ele andou praticando uns tantos desfalques. Ethan Hawke é Hank, o menor. Está desempregado, divorciado com uma filha adolescendo e por um desses caprichos da danação é o amante da sedutora mulher de Andy (Marisa Tomei). Os veteranos Albert Finney e Rosemary Harris são os pais e donos da joalheria que os filhos decidem roubar como solução para suas vidas miseráveis.
Pode ser que a rispidez da proposta dramática seja difícil de digerir por alguns. Pode ser ainda que a estrutura desconcertante do relato irrite um tanto a outros, mesmo que ela seja absolutamente compreensível. Mas indiferença diante desta narrativa audaciosa e muito bem resolvida será sempre ingrediente impossível de encontrar.


