Rio, 02 (AE) - O décimo aniversário de morte da cantora Nara Leão só ocorre no dia 7 de junho, mas os fãs saudosos já começam a recordar a data. De quarta-feira até o fim do mês, quatro shows no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no Rio, vão lembrar a vida e os sucessos da musa da bossa nova, título que ela sempre recusou.
No dia 11, uma grande exposição interativa toma conta do foyer do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), tentando trazer de volta os cenários e ambientes onde Nara soltou a sua voz.
Em pouco mais de 25 anos de carreira, interrompida algumas vezes por problemas de saúde e políticos, Nara foi protagonista de quase tudo o que aconteceu na música popular brasileira, a partir da bossa nova.
Aliás, era na sala do apartamento em que ela morava com os pais, na Avenida Atlântica, no fim dos anos 50, que medalhões como Carlinhos Lyra, Vinícius de Morais e o próprio Tom Jobim mostravam as músicas com as quais conquistariam o mundo pouco depois.
Guinada - A bossa nova ganhou o mundo e Nara Leão deu uma guinada na sua carreira em 1964, quando lançou o elepê Opinião, no qual cantava sambas de compositores de morro, como Zé Ketti e Nelson Cavaquinho. Foi ela também quem praticamente lançou Chico Buarque, quando cantou "A Banda", em 1966, num festival da TV Record, e encantou o público com ousadas (para a época) minissaias.
Mais tarde, foi a primeira cantora consagrada a gravar os tropicalistas (a canção "Lindonéia", de Caetano Veloso, em 1967) e a olhar com simpatia para Roberto e Erasmo Carlos, cujas músicas foram gravadas por ela nos anos 70. Na década de 80, voltou à bossa nova e todo mundo prestou atenção de novo nas músicas de Tom Jobim e companhia, que ela cantou até morrer, vítima de um tumor cerebral.
O projeto é da cantora e produtora Solange Kafuri, fã de carteirinha de Nara Leão. A música "Diz Que Fui por Aí", de Zé Ketti, cantada no show Opinião, de 1964, empresta o nome aos shows do CCBB, onde os amigos de Nara se reúnem para lembrar suas músicas, mais ou menos cronologicamente. De quarta-feira até domingo, Wanda Sá, Kay Lyra (filha de Carlinhos Lyra) e Roberto Menescal cantam músicas do período pré-bossa nova. Na semana seguinte, de 12 a 16, com Zé Ketti, Antônio Adolfo e Chris Dellano, é a vez dos sambistas que ela redescobriu.
O período dos festivais vai ser enfocado no terceiro show da série, do dia 19 até 23, com Antônio Adolfo e Cláudia Netto mostrando músicas dos compositores revelados por Nara, de Chico Buarque a Kleiton e Kledir, lançados num festival da TV Tupi, já no início dos anos 80. A série termina com Clarice cantando, de 26 a 30, o repertório eclético que ela escolheu a partir dos anos 70.
Exposição - A grande dificuldade que a arquiteta Patrícia Sobral teve ao montar a exposição Nara Pede Passagem, no BNDES, foi selecionar entre tanto material oferecido, o melhor e mais significativo para contar quem foi a cantora.
"Nara era muito querida e todo mundo que teve alguma convivência, afetiva ou profissional com ela, trouxe uma lembrança", conta Patrícia. "Acabei dividindo a mostra em 16 sessões temáticas, que funcionam como o roteiro de um filme."
Há preciosidades, como cenas de "Quando o Carnaval Chegar", filme de Cacá Diegues (seu ex-marido e pai de seus dois filhos), dos anos 70, no qual Nara canta e atua. A TV Educativa mandou a sua última entrevista e cenas de especiais que ela gravou. Para voltar à época de Nara, foram montados cenários lembrando a Copacabana dos anos 50, os festivais e os programas de televisão dos quais ela participou, tudo embalado pelo som dos 23 elepês que lançou. "Quem conheceu Nara Leão vai matar saudades e quem só ouviu falar, vai saber por que foi tão querida", conclui Patrícia.

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