SHOW/ENTREVISTA - As águas profundas de BETHÂNIA
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 15 de março de 2007
Antônio Mariano Júnior<br> Reportagem Local 
Doces, salgadas, barrentas, silenciosas, revoltas, arrepiadas, aquietadas, insuficientes nalgum canto, fartas noutros, incontroláveis. Temperamentais. Nada parece conter as águas evocadas por Maria Bethânia. O elemento de tão estimada apreciação e contemplação a essa senhora escorre através de metáforas e analogias diluídas em canções, poesias, gestos e atitudes cênicas. O discurso caudaloso - com o perdão do trocadilho - será pronunciado no decorrer do espetáculo ''Dentro do Mar Tem Rio'', que a intérprete - assim como ela gosta de ser chamada - apresenta amanhã, às 21 horas, no Teatro Guaíra, em Curitiba.
Bethânia vai pisar o palco - descalça, como de costume - faiscando conceitos amarrados em canções e textos. O repertório tem como nascente os dois mais recentes álbums da cantora, ''Mar de Sophia'' (no qual deita voz também em textos da poeta lusitana Sophia de Mello Breyner, e saúda as águas salgadas) e ''Pirata'' (em que acarinha as águas doces com poemas de Fernando Pessoa, Guimararães Rosa, Antonio Viera).
A narrativa é conduzida por canções de compositores clássicos e contemporâneos como Dorival Caymmi, Caetano Veloso, Luiz Gonzaga, Vinicius de Moraes, Vanessa da Mata, Arnaldo Antunes, Ana Carolina. E textos, muitos textos. Maria Bethânia será acompanhada por Jaime Alem (arranjos, regência, violão), Israel Dantas (violão, guitarra), João Carlos Coutinho (piano); Rômulo Gomes (baixo), Marcio Mallard (violoncelo), Carlos Balla (bateria e percussão) e Reginaldo Vargas (percussão).
''Dentro do Mar Tem Rio'' foi roteirizado por Bethânia e Fauzi Arap, mítico diretor e responsável pela inclusão da intérprete baiana no cenário teatral - é dele o antológico ''Rosa-dos-Ventos'' (1971). ''Fauzi não quer mais dirigir, diz que fica cansado'', informa a cantora, entre gostosas risadas, que incumbiu novamente a diretora Bia Lessa para melhor posicioná-la em cena.
Tudo em Maria Bethânia parece ganhar contornos incomuns. Em mais de quarenta anos de carreira, muitos foram os adjetivos a ela atribuídos. De ''rainha'' à diva, ela se esquiva e celebra sua humanidade. Sabe, no entanto, o interesse que desperta em fãs e admiradores ilustres. Gosta, mas fala com reticências, por exemplo, de uma biografia a ser escrita pelo professor Júlio Diniz e que ela diz querer saber mais detalhes - nada será publicado sem seu aval.
Sempre em foco, fala da admiração pelo cineasta Andrucha Waddington, responsável pelo documentário ''Pedrinha de Aruanda'', mas frisa mesmo que seu ofício é cantar. Ou melhor, interpretar, inclusive a si mesma e resolver da melhor forma possível suas ''águas interiores'' - bonito isso, não?
A seguir os principais trechos da entrevista que Maria Bethânia concedeu à Folha2.
Fauzi Arap ajudou a roteirizar o ''Dentro do Mar Tem Rio''. Por que não assumiu a direção?
Fauzi não quer mais dirigir.
Sério?
É, diz que fica muito cansado, fuma muito (risos). Mas a parceria não acabou. Fiz alguns ensaios em São Paulo, onde o espetáculo estreou, e ele foi. Achei uma novidade porque Fauzi gosta mesmo é de ficar quietinho em casa. No trabalho de roteirização desse espetáculo, Fauzi ficou em São Paulo e eu no Rio, trabalhamos juntos por computador, fax, telefone e foi ótimo.
Portanto, pode-se esperar muitas informações em cena, certo?
''Dentro do Mar tem Rio'' é um trabalho de sutilezas. É preciso muita atenção e entrega para pode navegar junto comigo senão fica um pouco perdido.O que acontece nesse espetáculo é algo sensível vindo de dentro de fora. É preciso boa disposição para entender isso.
Ou seja, suas águas são navegáveis, mas precisam ser assimiladas primeiramente...
Olha, no geral eu acho que toda água pode ser facilmente navegável, mas pode criar dificuldade também. A água não tem controle, não se pode parar: quer andar, ela anda; que subir, sobe; quer fazer marola, faz; quer ficar parada, fica... A água tem temperamento.
Temperamento como você, Bethânia?
É...Quando eu escolhi fazer os discos das águas a prioridade era organizar minhas águas interiores.
Conseguiu?
(risos) Pelo menos estão organizadas de algum modo. Mas isso é assunto para Doutor Carlos, meu psicanalista, e não para você que é jornalista...
Há quanto você faz psicanálise?
Desde muito cedo. Comecei aos 18 anos fiz um período, tive autorização para parar e voltei a fazer há muitos anos. Adoro, acho que é uma das coisas mais extraordinárias que o homem pôde inventar
Você é tema de uma biografia que estaria sendo escrita pelo professor Júlio Diniz. Você permitiu já que é tão arredia, reservada?
Quanto ao livro, pouco sei porque professor Júlio é um grande e velho amigo meu, por quem tenho imensa admiração. Ele sempre desejou escrever essa biografia, bem como outro amigo professor chamado Moza que me disse: 'Se um dia quiser escrever alguma coisa sobre você, deixa eu fazer'. Agora, com o professor Júlio não conversei sobre isso. Sei que a tese dele - ele é professor de Literatura - é sobre a palavra na música brasileira. Então acredito que ele vá muito por esse caminho porque sou uma cantora um pouquinho diferente do normal...Sou uma intérprete.
É verdade que você está sendo sondada para cantar, junto com Milton Nascimento, na visita do Papa Bento XVI ao Brasil?
Mas isso não é a primeira vez não. Todo Papa que vem aqui acho que gostaroa de me ouvir cantar.
Por que será?
Deve ser porque gravei um disco em homenagem à Nossa Senhora e as pessoas falam da minha religiosidade, da minha adoração por Nossa Senhora. Sou católica de berço e sigo os ritos bonitos que aprendi na minha cidade.
Você gosta do Papa Bento XVI?
Não o conheço...
(risos) Nem eu, obviamente. Pergunto se você se simpatiza com ele?
Não parei para pensar nele não. O Papa está lá cumprindo o papel dele... Entendo pouco... Todas as religiões têm tantas coisas positivíssimas e outras estranhíssimas que eu fico um pouco de longe para que nada mexa na minha fé. Há algumas posturas radicais que procuro não saber, não me interessa. Agora, sobre cantar ao lado de Milton Nascimento sempre será uma honra e uma alegria. Mas acho meio impossível porque o período em que o Papa estiver no Brasil eu estarei em turnê.
Você gravou um disco com a cantora cubana Omara Portuondo, é isso?
É, estamos acabando de mixar e agora o disco está sendo remasterizando... Estou gravando também com a Sueli Costa, que está fazendo um disco para comemorar 40 anos de carreira. Vou cantar ''Sim, Sei Bem'', um poema do Fernando Pessoa que ela musicou há anos. Com a Omara Portuondo foi assim: ela esteve aqui no Brasil, ano passado, nos encontramos e ela disse que gostaria de cantar comigo. Eu disse: ''Ah, claro, pois não, vamos'' (risos). Pensei que fosse alguma coisa só naquela hora. Não! Ela foi fundo e passou a me mandar o material sobre um disco conjunto. Ela foi genial. Até que me informou que ia chegar tal dia no Brasil para gravarmos o disco (risos). Foi uma honra!
Bethânia, você já se deu conta de como as pessoas gostam de cantar com você?
Algumas gostam... Eu gostaria de gravar com muita gente.
Ah é? Quem, por exemplo?
Ah, algumas...
Você e Chico Buarque se unirem novamente, há condições?
Não, não...
Uma curiosidade para terminar. Acho bonita a forma como você encerra o show colocando o microfone no chão, tocando o palco com os dedos... O que passa na sua cabeça nesse momento?
(risos) Sou a única baiana que sabe dar fim às coisas. Para mim é muito importante poder ter me expressado e ter levado uma idéia para as pessoas maturarem. Gosto disso! Portanto, agradeço.
Serviço
- Show ''Dentro do Mar Tem Rio'', com Maria Bethânia. Amanhã, às 21 horas, no Teatro Guaíra Guaira, em Curitiba. Ingressos: R$ 200,00 (na promoção especial o comprador ganha outro bilhete), R$ 100,00 (meio ingressos na platéia), R$ 80,00 (1º balcão) e R$ 60,00 (2º balcão), válido para estudantes e pessoas acima dos 60 anos.


