São Paulo, 09 (AE) - As vanguardas fracassaram, a experimentação fracassou e só sobrou John Cale com um arremedo de folk e pop no meio do palco. O primeiro show em terras brasileiras do homem que levou a música à Fábrica de Andy Warhol
nos idos de 1967, foi uma decepção - apesar da reverência do público e da própria qualidade técnica e intelectual do protagonista. Amanhã (10) é a última noite, no Sesc Vila Mariana
em São Paulo.
O galês John Cale foi o fundador da banda-projeto "Velvet Underground", com Lou Reed e outros partners, em Nova York, em 1967. Antes, fizera a música para os filmes conceituais "Kiss" e "Eat", de Andy Warhol. De formação erudita, inventou quase tudo o que o rock veio a conhecer nos anos seguintes, incluindo o punk. Em carreira-solo, após dois discos do "Velvet", ele passou três décadas procurando o fio da meada. Fez trilhas para filmes como "Basquiat", gravou com Phil Spector e Brian Wilson, foi minimalista e sinfônico. Mas parece que ainda não encontrou seu caminho.
"Boa noite, Brasil", ele disse, entrando como quem vai tocar num bar. Em boa forma, paletó preto de tecido sintético amassado, cabelo tingido de loiro, sapato vermelho. Mas logo veio a má notícia: ao violão, ele atacou um folk pré-Bob Dylan, "Ship of Fools". O que era música se reduziu apenas à lírica, gênero para o qual Lou Reed parece melhor talhado - justamente por suas limitações musicais. Em um set de 17 canções, John Cale alterna bons e piores momentos.
Destila ironia para com o conservadorismo europeu ("Essa é uma visão européia do Velho Oeste"), dramaticidade de clichês e sarcasmo para com a própria condição de sobrevivente. O vozeirão segura o show semi-acústico - que só é plugado na 11.ª canção, "Cable Nogue", na qual recebe o apoio do tecladista Adam Dorn. Diz procurar algo como o clima dos filmes de Sam Peckinpah. A partir daí, em quatro canções com Dorn (A Dream, Gun e Hallelluyah), John Cale experimenta - no velho gênero spoken words inventado lá pelos beatniks, por Allen Ginsberg e seus pards - uma conexão qualquer com a modernidade. Mas Dorn é burocrático e os poemas épicos de Cale sobrevivem mais pelo que trazem de contradição.
"Ver John me fez lembrar dos Velvets e eu estava pensando sobre eles quando me vi em St. Marks Place indo para a nova galeria que aqueles doces garotos tinham aberto", diz, na letra de "A Dream", um sonho caleidoscópico e autobiográfico. "Lou Reed casou-se e não me convidou? Deve ser porque eu sempre trago gente demais", brinca, na letra. Piano - Ao piano, ele demonstra que tem um domínio técnico completo. Enfia fraseados eruditos em canções como "Cordoba", brinca com o descompasso entre voz e som. Ao violão, cantando coisas como "Xmas e Wedding" e a balada "Do not Go Gentle", parece só um velho bardo em busca de um mote. Seu pendant eletrônico com Adam Dorn mostra a dessintonia logo no número final, já no bis. Dorn solta a base de "Hallelluyah" antes de Cale começar seu lamento. "É um frio e partido Aleluia!", ele canta. Crescendos orquestrais e lentos "fade out" vêm em socorro de Cale, um velho mito à procura de uma idéia.

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