Quando pequena cantava em coro de igreja. Operária tecelã, não deixava de tecer seus sonhos nas ondas do rádio, mesmo opondo-se aos princípios religiosos de sua família. Desde 1947, quando começou a frequentar programas de calouros, não parou mais de cantar. Dona de uma das vozes mais privilegiadas da música brasileira, aos 77 anos Ângela Maria não apenas coleciona discos, mas uma constelação de títulos majestosos.
Hoje, a estrela retorna a cidade depois de oito anos em uma realização da Prefeitura de Londrina, por meio do programa Rede Alegria da Secretaria de Cultura, com patrocínio da Sercomtel. O show acontece a partir das 21 horas no pátio interno do Museu de Arte e integra as comemorações do Natal e do aniversário da cidade. Inicialmente programado para ser realizado no Memorial do Pioneiro (Concha Acústica) no dia 22, o espetáculo foi antecipado para hoje. Segundo o secretário municipal da Cultura Luciano Bitencourt, a justificativa para a mudança da data e local se deve ao atraso na conclusão das obras.
Ângela possivelmente desfilará canções como ''Vida de bailarina'' (Américo Seixas e Chocolate), ''Orgulho'' (Valdir Rocha e Nelson Wederkind), ''Ave Maria no Morro'' (Herivelto Martins), ''Lábios de Mel'' (João Vilaça Júnior e Nage) e a canção afro-cubana ''Babalu'' (Margarita Lecuona) - seu carro-chefe. Antes de assumir o palco na noite de hoje, o ''Duo Pé Vermelho'', com Edna Aguiar e Marco Antonio Scolari abrirá espaço para a grande senhora da canção.
Nascida em Macaé, Rio de Janeiro, Ângela Maria lançou seu disco de estréia em 1951. Durante toda década de 50, atuou intensamente no rádio, período em que recebeu o brasão de ''Princesa do Rádio'' e, em 1954, o título de ''Rainha do Rádio''. No mesmo ano, a estrela também entregou-se ao cinema, no filme ''Rua Sem Sol'', de Alex Viany.
Apelidada Sapoti pelo presidente Getúlio Vargas, Ângela Maria é uma cantora para todos - e de todos os tempos. Voz que não se perdeu nos cinquenta e cinco anos de carreira. Aliás, recordista mundial em gravações, a intérprete coleciona mais de cem discos lançados, entre vinis, compactos, LPs e CDs, sem levar em conta as participações na discografia de outros grandes artistas. Recentemente lançou seu 111º álbum (Sony Music) com participações especiais de grandes nomes da MPB. Para o próximo ano prepara um novo projeto. Sinal de que, a 'rainha' continua reinando absoluta no coração.
A seguir, os principais trechos que a cantora concedeu, por telefone, à Folha2.
O que o público pode esperar do show em Londrina?
Eu vou fazer um apanhado dos meus sucessos, algumas coisas novas, atendendo mais aquele público da década de 60, 70, 80 até 90. Também vai ter músicas do meu último álbum, ''Disco de Ouro'', que foi lançado pela Lua Disco. Eu fiz um apanhado dos sucessos dos meus colegas e gravei. De Roberto Carlos, Djavan, enfim, desses grandes autores e cantores. Foi aquele apanhado gostoso.
Como você se situa na MPB atual, sendo você uma cantora já tão arraigada à música brasileira, com mais de cinquenta anos de carreira?
Eu acho que eu sou uma cantora que canta qualquer ritmo, posso até dizer, sem nenhum convencimento, que sou uma cantora eclética, pois canto tudo. Então acho que estou bem colocada. Canto todos os ritmos, músicas de outros países, estou sempre atual.
E quanto ao seu público, é cativo? Os jovens ouvem Ângela Maria?
Eu tenho um público cativo, mas junto, tenho também um público jovem, esses que estão surgindo agora. Talvez seja por causa dos pais, dos avós, que sempre gostaram de Ângela Maria, que gostavam e ensinaram minhas músicas aos netos.
O que você ouve atualmente?
Ouço os artistas atuais e alguns artistas do passado, pois têm muitos maravilhosos. Marisa Monte, Fafá de Belém, que eu acho atual. Ah, tem muitos mesmo, sem falar nas duplas... Zezé di Camargo e Luciano, inclusive KLB eu adoro, amo!
Vamos inverter essa pergunta: o que você definitivamente não ouve?
Não ouço essas músicas barulhentas, tipo rock, eletrônica. Já não dá para meus ouvidos. Não é por considerá-los ruins, mas pelo meu estilo que é mais romântico, e essas músicas barulhentas realmente não fazem meu gênero.
Você participou há pouco tempo do programa ''Rei Majestade'' (SBT), que regastou muitos artistas brasileiros. Sendo você uma cantora tão reconhecida, com mais de cem discos gravados, foi necessário participar para ser lembrada ou relembrada?
Eu entrei nesse programa por uma questão de engano. Eu fui chamada para participar do Teletom, aquele programa que o Silvio Santos faz todo ano para ajudar os hospiais. Ele me chamou para fazer um novo quadro que iria apresentar no Teletom e imediatamente eu aceitei e gravei. Depois eu fui saber que ele tinha gostado muito e decidido fazer um programa completamente separado do Teletom. Eu não gostei muito, fiquei chateada, mas já havia me comprometido. Então, continuei fazendo. Muita gente foi contra, acharam ruim por eu estar atuando no programa, mas eu tenho uma palavra, sou uma artista que sempre fui considerada pela minha maneira de ser, pontual, mulher de palavra. Sempre fui pelo caminho do bem, pelo corretismo, então aceitei no escuro.
São 55 anos de carreira. Você já pensou ou parar de cantar?
Enquanto eu tiver fôlego e essa vibração, eu vou continuar cantando. Até morrer! Estou realmente vibrando, ansiosa para cantar aí, pois faz muito tempo que não vou a Londrina. Mas fui muito bem recebida, acarinhada pelo povo daí. Estou ansiosa por chegar logo.

Serviço:
- Show com a cantora Ângela Maria. Em comemoração do Aniversário de Londrina e compondo a programação de natal. Hoje, às 21 horas. No Museu de Arte de Londrina. Entrada franca

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