SHOW - Samba de boa linhagem
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quarta-feira, 28 de setembro de 2005
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
A época de ouro da música popular brasileira, celebrizada entre as décadas de 30 e 50, é fonte inesgotável de garimpo para novos intérpretes. Não por acaso, o mercado fonográfico acolhe periodicamente discos de jovens cantores e cantoras pinçando do baú composições de Noel Rosa, Ataulfo Alves, Wilson Batista, Nelson Cavaquinho, Geraldo Pereira e outros luminares do período.
O carioca Marcos Sacramento, 42 anos, reafirma a tendência em seu último álbum, ''Memorável Samba'', que veio lançar esta semana no Paraná. Ele se apresentaria ontem no Guairinha, em Curitiba. Hoje vem a Londrina, onde faz show a partir de 21 horas no Teatro Crystal Palace.
''Já me apresentei uma única vez em Curitiba, no início dos anos 90, durante um festival competitivo de música organizado pelo Carrefour. Em Londrina será a primeira vez'' diz ele, por telefone. O artista interpretará músicas do último CD, além de canções inéditas e uma faixa de seu disco de estréia ''A Modernidade da Tradição'' (1997).
No palco, terá a companhia dos músicos Luiz Flávio Alcofra (violão), Jayme Vignoli (cavaquinho), Humberto Araújo (saxofone e flauta), Jeziel do Nascimento (trompete), Netinho Albuquerque, João Hermeto e Rodrigo Jesus (todos percussionistas). Os dois primeiros, avisa ele, integram o grupo Água de Moringa e foram responsáveis pelos arranjos de ''Memorável Samba''.
Ainda pouco conhecido no Brasil, Sacramento é de Niterói (RJ), onde cresceu ouvindo os pais e as tias cantando samba. Iniciou a carreira artística aos 21 anos como integrante da banda Cão Sem Dono, que misturava rock, bolero, samba e outros ritmos. A experiência durou 1 ano até o momento em que foi convidado para participar de um disco com músicas do cantor e compositor Custódio Mesquita (1910-1945).
Daí em diante, virou a cabeça para os compositores da velha guarda. Marcos já recebeu críticas elogiosas no exterior, particularmente na França, onde realizou turnês e seu último CD obteve cotação máxima da revista Le Monde de la Musique. O novo álbum, lançado no ano passado pelo selo Biscoito Fino, é o sexto trabalho do artista cuja discografia elenca o citado ''A Modernidade da Tradição'' e mais ''Caracane'' (1998), ''É Sim Sinhô Vol. I e II'' (2000), ''Notáveis Desconhecidos'' (2001) e ''Saravá Baden Powell'' (2003, gravado em dupla com a cantora Clara Sandroni).
O novo álbum reúne 13 sambas criados entre as décadas de 30 e 50. O título foi extraído da faixa ''Meu Romance'', de J. Cascata (''Na tarde daquele memorável samba / Eu me lembro, tu estavas de sandália / Com teu vestido de malha / No meio daqueles bambas..''). De Noel Rosa, o poeta da Vila, ele regravou ''Mulato Bamba'', ''Xis do Problema'', ''Triste Cuíca'' (parceria com Hervê Cordovil) e ''Só Pode ser Você'' (escrita a quatro mãos com Vadico).
De Herivelto Martins resgatou ''Meu Rádio e Meu Mulato''. De Wilson Batista e Moreira da Silva buscou ''Esta Noite Eu Tive um Sonho''. De Nelson Cavaquinho e A. Caminha emprestou ''Notícia''. Há composições ainda de Assis Valente (''Fez Bobagem''), Ataulfo Alves (''Errei...Erramos''), Geraldo Pereira e Ary Monteiro (''Onde Está a Florisbela?''), Waldemar Silva (''Imperador do Samba'') e Nelson Petersen (''Deixa Falar!'').
Esta última, que abre o CD, foi gravada originalmente por Carmen Miranda e tornou-se uma espécie de hino brasileiro para a Copa do Mundo de 1938. A letra cita os grandes clubes da época (Flamengo, Fluminense, Botafogo, São Paulo e São Cristovão) e homenageia o craque Leônidas da Silva (conhecido pelo apelido de Diamante Negro).
''A idéia foi valorizar as composições dos artistas que admiro emprestando-lhes uma coloração atual sem desrespeitar a ultra-modernidade e atemporalidade dos registros originais'' explica o cantor. A abordagem contemporânea do intérprete não passou despercebida pelo Le Monde de La Musique. ''O carioca Marcos Sacramento escapa da tentação meramente 'imitativa' e dá, com sua voz, uma textura original a canções já ouvidas milhares de vezes'' assinalou a publicação.
O jornalista e escritor Ruy Castro foi outro que se rendeu encantado. Na época do lançamento de ''Memorável Samba'', ele atendeu um telefonema de um repórter que pedia informações para uma reportagem sobre o compositor norte-americano Cole Porter. O autor de ''Chega de Saudade'', foi logo dizendo: ''Que Cole Porter o quê! A gente precisa é ouvir mais música brasileira. Marcos Sacramento, por exemplo, é sensacional. É um dos segredos mais bem guardados da MPB''.
O alvo do elogio, por sua vez, procura distribuir o mérito entre todos os músicos que o acompanharam no disco. ''A formação de meu grupo é de conjunto regional, mas a linguagem adotada traz liberdades sonoras. Rola uma pancadaria ali. Dizia-se de Noel Nosa que ele estava à frente de seu tempo. Acho que não só ele, mas todos os compositores que gravei eram naturalmente sofisticados e modernos. Procurei não descaracterizar suas canções. Acho que a crítica entendeu a proposta do trabalho''.
Preparando novo repertório, Marcos Sacramento pretende mesclar os clássicos alheios com músicas de sua própria autoria (ou com parceiro) no próximo CD. A intenção é entrar em estúdio até o final do ano e lançar o disco no começo de 2006.
Serviço:
- Hoje: Show com Marcos Sacramento. Horário: 21 horas. Local: Teatro Crystal Palace (Rua Quintino Bocaiúva, 15). Ingressos: R$ 20,00 e R$ 10,00 (para estudantes, idosos e para os 100 primeiros espectadores). Ponto de venda: loja Capital Discos (térreo do Royal Plaza Shopping). Mais informações: tel. (43) 3315-1515.


