SHOW - SABOR ORIGINAL DE VANGUARDA
PUBLICAÇÃO
domingo, 12 de dezembro de 2004
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Só nuvens carregadas poderão ameaçar o ataque de Clara Crocodilo. A chuva, que melou o show de Hermeto Pascoal no último domingo, é o único temor do compositor Arrigo Barnabé para a apresentação de hoje no Anfiteatro do Zerão.
O show começa às 18 horas. No palco, ele executa o repertório integral do álbum ''Clara Crocodilo'', que o projetou como um dos artistas mais radicais já surgidos na música popular brasileira.
O disco, lançado em 1980, continua impactando os ouvintes. Quando chegou às prateleiras, desconcertou público e crítica com uma linguagem inovadora tributária da música erudita contemporânea. Catalogado como clássico do experimentalismo pop nacional, ''Clara Crocodilo'' misturava ingredientes de atonalismo, serialismo e dodecafonismo ao rock e à MPB.
Ao caldo sonoro, adicionava elementos de histórias em quadrinhos e narrativa de programas policiais de rádio. Com o álbum, Arrigo tornou-se figura de proa da ''vanguarda paulistana'', rótulo cunhado pela imprensa para caracterizar artistas emergentes que traziam propostas avessas ao padrão para consumo fugaz.
Em 1999, ele regravou seu álbum de estréia ao vivo acompanhado de orquestra sinfônica. Hoje em Londrina, ele traz a banda Sabor de Veneno reaglutinada com vários integrantes da formação original incluindo as vozes femininas. Ao lado dele estarão os músicos Claudio Faria (trompete), Mané Silveira (sax alto e soprano), Chico Guedes (sax tenor), Ubaldo Versolato (sax barítono e alto), Roney Stella (trombone), Bozzo Barreti (teclados), Paulo Braga (teclados), Regina Porto (teclados), Tonho Penhasco (guitarra), Paulo Barnabé (bateria) e Mário Campos (baixo elétrico).
Os backings ficarão por conta de Vânia Bastos e Suzana Salles, com participação especial de Tetê Espíndola. Segundo a organização, em caso de chuva, o show será transferido para o Londrina Country Club. Como não há ingressos, será respeitado a ordem de chegada do público e a capacidade do local. A seguir, confira a entrevista que Arrigo concedeu por telefone à Folha Dois.
A primeira e única vez que você apresentou o show ''Clara Crocodilo'' em Londrina foi em 1980, ano do lançamento do disco homônimo. O que o motivou a trazer o espetáculo outra vez para cá, 24 anos depois?
Montei esse show para apresentá-lo no dia 25 de janeiro desse ano, a convite do Sesc e em comemoração à data de aniversário de 450 anos de São Paulo. Depois de reaglutinar a banda, fizemos apresentações no Sesc-Pompéia, Sesc-Ipiranga, e Sesc-Vila Mariana. Daí que quando o pessoal do Sercomtel me ligou em agosto, eu falei que estava com esse show. Falei que a banda tinha muita gente, que não era um show pequeno, e mesmo assim eles toparam. Cheguei a sugerir dois concertos em sala fechada: um com a missa que compus para o Arthur Bispo do Rosário, que seria apresentada na Catedral; e outro com uma missa em comemoração aos 70 anos de Londrina. Neste último caso, eu teria que compor a obra... Mas eles queriam um show ao ar livre. E como o ''Clara Crocodilo'' é conhecido, é uma referência, fechamos o show. Era para vir em agosto, mas não deu certo, por causa da campanha eleitoral.
Você conseguiu reunir a formação original da banda Sabor de Veneno?
Não, ela vai incompleta porque o percussionista Rogério Benatti e o baixista Otávio Fialho morreram e o guitarrista Gilson Gibson não toca mais. Para substituí-los chamei o Paulo Braga, o Tonho Penhasco e Mário Campos.
Há algum projeto de entrar em estúdio com a banda e gravar um disco?
Talvez a gente faça algo em grupo. Por enquanto, estou gostando dos concertos. Eu adoro, é uma delícia, me divirto muito em cena com esse pessoal, todos na casa dos 50 anos. Talvez a gente trabalhe em cima de composições, mas desde que seja coletivamente, dividindo parcerias com meu irmão (Paulo Barnabé) e com outros compositores. Aí, vejo alguma possibilidade de gravar alguma coisa.
Fora a banda, você está com algum outro projeto de disco?
Estou pensando em reunir num único CD as missas que fiz para o Arthur Bispo do Rosário (2003) e para o Itamar Assumpção (2004). Ele sairia pelo selo Thank God Records, que mantenho em parceria com o Carlos Careqa.
Como você contextualiza o álbum ''Clara Crocodilo'' no panorama atual da música popular brasileira? Ele permanece atual?
É um disco muito contemporâneo, muito atual. Ninguém acha que é de 1980. Recentemente, a coreógrafa e bailarina portuguesa Vera Mantero (que apresentou uma performance na 26 Bienal de São Paulo) ouviu o disco e ficou abismada, não acreditando que o trabalho foi gravado há mais de duas décadas.
Que elementos ali continuam impactando os ouvintes?
O disco tem uma espécie de diluição da música erudita contemporânea, uma coisa de torná-la mais acessível sem pesar a mão, que continua bastante atual. Você ouve e tem a sensação de que a frase é estranha, mas o ritmo é catártico. E tem a repetição, que provoca movimentação emocional nas pessoas. Há outros elementos, como o texto, que mistura HQ, narração radiofônica e urbanidade.
Você se queixou certa vez, numa entrevista à Folha Dois, que ''Clara Crocodilo'' era um disco revolucionário mas que não havia deixado herdeiros. Você continua pensando assim?
De fato, só vejo continuação no trabalho da Patife Band e um pouco no trabalho do Sidney Giovenazzi. O ''Clara'' é um disco muito pessoal. Talvez daqui pra frente apareçam seguidores.
Você acompanha os lançamentos, os discos e os novos artistas da área popular ou pop que estão surgindo? Tem gente fazendo música de qualidade?
Deve ter, mas não acompanho. Estou mais ligado na música erudita. Estou interessado em partituras, em escrever música. Quando participo como jurado de festivais, como o Prêmio Visa, o que ouço ali já está peneirado. Não tenho acesso à totalidade da criação. Mas o que percebo é que cresceu a qualidade dos instrumentistas.
A que você atribuiu isso?
À proliferação de escolas, à facilidade para gravar em casa e à própria tranquilidade para seguir a carreira de músico. Antes o músico era muito estigmatizado. Por outro lado, se melhorou a qualidade dos instrumentistas, caiu a qualidade dos textos.
Que expectativas você tem em relação ao show de hoje no Anfiteatro do Zerão?
Minha expectativa é climática. Espero que não chova.
Serviço:
- Hoje: show de Arrigo Barnabé e banda Sabor de Veneno. Horário: 18 horas. Local: Anfiteatro do Zerão.


