SHOW - Rock 'do bem'
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 30 de abril de 2004
Fábio Galão<br>Reportagem Local 
O estranhamento permanece. Como Rodolfo Abrantes, ex-vocalista dos Raimundos, abandonou uma das bandas mais irreverentes e obscenas da história do rock brasileiro (e uma das mais bem sucedidas comercialmente dos anos 90) em nome da conversão a uma igreja evangélica? O Rodox, grupo que o cantor montou após sua saída da banda que lhe deu fama, se apresenta hoje à noite pela primeira vez em Londrina, na Acel.
Antes, outras seis bandas sobem ao palco: as paulistas Praise Machine e Militantes, Sadoque, de Cambé, a catarinense Frango 64, e as londrinenses 33 HC e V.I.P., com estilos que variam do punk rock ao metal. Embora os integrantes destes grupos tenham simpatias cristãs, a exemplo da atração principal dessa maratona roqueira, os organizadores frisam que o evento não tem caráter religioso.
O próprio Rodolfo é o primeiro a esclarecer que o Rodox não é uma banda gospel, embora algumas de suas letras remetam a Jesus Cristo. Logo após comunicar sua saída dos Raimundos, em junho de 2001, o vocalista deu várias declarações na imprensa sobre como a conversão - à época, ele frequentava os cultos da seita Sara Nossa Terra; hoje, está na Assembléia de Deus - o havia ajudado a abandonar as drogas e fez com que deixasse o grupo do hit ''Mulher de Fases''.
''Eu saí de uma banda que fazia muito sucesso, mas que estava fazendo uma coisa que já não tinha nada a ver comigo'', explicou Rodolfo, em entrevista à Folha. A decisão foi tratada com certa ironia por parte da mídia. ''É o mesmo blá-blá-blá há três anos. Eu não me incomodo nem um pouco em falar sobre a minha conversão. Eu posso ficar falando de Deus na sua orelha até você ficar cansado e sentir vontade de mudar de assunto''.
O vocalista demonstra um arrependimento profundo dos anos em que liderou os Raimundos. ''Eu não volto atrás por dinheiro nenhum nesse mundo. Eu não gosto de lembrar (da época dos Raimundos), foi uma face escura da minha vida, em que eu tomei atitudes das quais me arrependo até hoje. Sinto vergonha dos discos que gravei com os Raimundos'', disparou, em referência às letras que cantava em sua ex-banda, que abordavam temas como sexo e maconha de forma nada sutil.
No início de 2002, Rodolfo lançou pela Warner o primeiro disco do Rodox, ''Estreito''. O próprio vocalista gravou todas as guitarras e baixos do álbum, e foi escudado pelo DJ Bob e pelo baterista Fernandão. Os dois músicos permaneceram com Rodolfo quando ele decidiu formar uma banda propriamente dita para a turnê de divulgação. Em 2003, saiu o segundo disco, ''Rodox'', este composto com a ajuda de todos os integrantes. Os dois trabalhos misturam hardcore, rap e new metal.
Após algumas mudanças de formação, a banda que se apresenta hoje em Londrina traz, além de Fernandão e Bob, Marcelo Cortez e Marcus Ardanuy nas guitarras e Canisso no baixo. Este último tocava com Rodolfo nos Raimundos, banda da qual se desligou no ano passado para tocar com o ex-companheiro. ''Voltar a trabalhar com o Canisso foi ótimo. Ele sempre foi meu amigo e já conhecia os outros caras do Rodox. Minha vida mudou radicalmente, a dele também, então foi excelente voltar a tocar com ele'', diz Rodolfo.
O vocalista foi econômico ao falar sobre o guitarrista Digão e o baterista Fred, os únicos da formação original dos Raimundos que permanecem no grupo. ''Não falo com eles, não acompanho, não ouço os discos'', afirmou.
No ano passado, o Rodox foi demitido da Warner, que decidiu enxugar seu cast devido a dificuldades financeiras. Rodolfo sabe que sua banda foi dispensada porque não igualou o desempenho comercial do auge dos Raimundos. ''Mas esse (Rodox) não é um grupo pra vender, é um lance diferente. É uma banda pra falar a verdade, são coisas que as pessoas não gostam de ouvir, porque a verdade dói'', afirmou. Segundo o vocalista, o grupo está compondo novas canções, que devem ser incluídas num disco a ser lançado no segundo semestre. Ainda não houve acertos sobre por qual gravadora o álbum vai sair.
O que surpreende mesmo é que Rodolfo está ouvindo cada vez menos rock. Ele prefere elogiar grupos gospel como Oficina G3. ''Adoro o trabalho deles. Quase não ouço mais rock. Fico mais com músicas de louvor, adoração, dessas que tocam em igrejas evangélicas''.
Serviço:
- Show da Rodox e outras seis bandas. Hoje, a partir 15 horas, na Acel (Rua Paulo Kawassaki, 101). Os ingressos antecipados para o show estão à venda a R$ 10 (R$ 5 para estudantes) na Bolivar Sportwear, na Ibrahim Presentes (ambas no Calçadão), na Lexx Piercing & Tatoo (Shopping Royal Plaza), no Armazém do Músico (Rua Pernambuco, 247) e na Microlins Informática (Rua Goiás, 1242).
Os fãs podem levar bicicletas, skates e patins, porque haverá uma rampa no local. Antes, a partir das 11 horas, Rodolfo participa de uma sessão de autógrafos na Lexx.


