Curitiba - Eles não surgiram propositalmente para fazer um contraponto à música pasteurizada, infantilizada (no pior sentido) e mercadológica que reinava no começo dos anos 90, mas sim pelo gosto pessoal apurado, por uma demanda própria e pela busca de maior qualidade na música para crianças. Foi assim que os músicos Paulo Tatit e Sandra Peres decidiram criar, há 13 anos, o selo Palavra Cantada. Mas já no início a dupla virou referência na música infantil e sinônimo de coisa boa. Os discos foram adotados pelas escolas que pensavam numa didática moderna. A dupla, definitivamente, revolucionou o mercado dedicado aos pequenos ouvintes e, mesmo sem querer, se contrapôs a toda aquela parafernália musical dissidente.
Dezenas de discos depois, não há como falar de música para criança sem citar a dupla. O público que acompanhou a criação do selo já cresceu e continua gostando e o selo arrebata novos fãs a cada novo trabalho. O motivo: os músicos não abandonam o bom senso e a pesquisa quando o assunto é criança. ''Mantemos a postura que temos desde o início. Quando criamos o selo, estávamos chateados com a produção da música infantil: sem criatividade, baseado numa mitologia rural que já teve sua época, mas que não funcionava mais'', conta Paulo. Eles não tinham a intenção de romper com a estrutura já condensada (o que acabou acontecendo inevitavelmente), mas queriam fazer algo mais urbano, pensando numa criança atualizada.
Foi quando surgiu o disco ''Canções de Ninar'', seguido por ''Canções de Brincar''. Brincadeiras para pais e filhos em letras deliciosas, como a que pergunta ''O que o papai pode fazer pro neném nanar?'' em uma interpretação impagável de Tatit. Ele, pai de Lua, que já tem 23 anos, conta que a criação da filha ajudou a pensar nas letras e no formato das músicas, mas muita coisa foi inspirada na postura de outras crianças. ''Às vezes a gente nem conhece, mas a criança faz uma careta, um gesto que a gente vê na rua e já nos inspira'', conta.
Ele considera o trabalho feito pela dupla nesses mais de dez anos como um ''trabalho de formiguinha''. ''A gente sempre fez as coisas fora da mídia. Nunca pensamos numa projeção nacional, mas o público e a crítica foi acolhendo a gente. Nós fomos plantando as coisas devagarinho'', diz. Mas nem tudo foi fácil. Tatit lembra, por exemplo, a dificuldade que a dupla teve de conseguir patrocínio para a gravação dos discos, sempre independentes. Para gravar o CD ''Canções do Brasil'', por exemplo, eles chegaram a vendar bens pessoais e a investir cerca de R$ 300 mil tirados do próprio bolso para percorrer o País em busca de culturas locais. O projeto durou de 1998 até 2001. ''Mas conseguimos as passagens'', comemora Tatit.
Para ele, muitos artistas têm um tino comercial que ajuda a vender projetos (e discos). Não é o caso deles. ''Nós temos uma certa dificuldade nesse lado comercial, mas estamos aprendendo'', brinca. Esse ''detalhe'', no entanto, não atrapalhou em nada o sucesso da dupla, conquistado, aliás, por mérito próprio. ''Nós sempre buscamos uma produção musical apurada, não somente na letra das músicas, mas também nos arranjos. A gente teve produtores como o Alê Siqueira, que é o mesmo que produz os discos da Marisa Monte. O que queremos é que nossos discos infantis estejam ao lado de qualquer disco de boa qualidade'', salienta Tatit.
Antes de criar o Palavra Cantada, Paulo e Sandra tinham trabalhos pessoais distintos, mas já faziam, juntos, alguns trabalhos publicitários. Paulo Tatit integrou o Grupo Rumo, criado em 1974 por estudantes da Escola de Comunicação e Artes da USP, com integrantes como Ná Ozetti e Luiz Tatit, irmão de Paulo. O grupo lançou seis discos, incluindo o infantil ''Quero Passear'' (1988, Prêmio Sharp), que já sinalizava a futura dedicação do músico.
Já Sandra, antes do Palavra, se dedicava à música erudita, mas no final da década de 80 já tinha uma parceria com Paulo. Os dois começaram a sentir falta de uma trabalho de qualidade na música infantil e decidiram criar o selo Palavra Cantada, inspirado num livro de Augusto de Campos. O início não poderia ser melhor. Já no primeiro disco ''Canções de Ninar'' (1994) ganharam o prêmio Sharp de melhor álbum infantil, prêmiação que o Palavra Cantada receberia mais duas outras vezes (''Canções Curiosas'' e ''Canções de Brincar'').
O disco mais recente dos dois é ''Pé com pé'', cujo repertório a dupla mostra hoje em Curitiba, encerrando as apresentações que começaram ontem. O repertório do disco deve ser gravado em DVD em dezembro, no Teatro Ibirapuera, em São Paulo. E as novidades da dupla não páram por aí. Eles estão reunindo os hits do Palavra Cantada para ser gravado em espanhol e já reúnem composições suficientes para um disco inédito, com previsão de ser gravado no ano que vem. A dupla também está em negociação com uma TV (ainda não divulgada) para protagonizar um programa infantil, com previsão de exibição em 2007. Crianças e adultos (principalmente os pais, professores, tios, tias e padrinhos) agradecem.

Serviço:- Palavra Cantada em Curitiba. Última apresentação hoje, às 16 horas, no Curitiba Master Hall (Rua Itajuba, 143. Telefone 41 3248 1001). Ingressos a R$ 20 e R$ 10,00.

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