Bota suingue nisso! E também fartas polvilhadas de irreverência e bom humor para o caldo engrossar. Trata-se de uma receita testada, aprovada e comprovada e que poderá ser apreciada hoje no Cabaré do Filo. No palco, o lendário Trio Mocotó, cuja trajetória artística estará diretamente atrelada ao samba-rock, estilo no qual foram os precursores ao lado de Jorge Benjor. Histórias atreladas, sacam? O então Jorge Ben e seu violão suingado encontraram respaldo rítmico no pandeiro de Nereu Gargalo, na cuíca de Fritz Escovão e na timba de João Parahyba. Isso no final da década 60. ''A aproximação foi como toda mágica que acontece na música: de repente e simplesmente'', resume João Parahyba.
Tudo principiou na boate paulistana Jogral, onde o trio instrumental acompanhava muita gente boa Clementina de Jesus, Cartola, o próprio Benjor e canjas com entidades universais como Duke Ellington e Dizzy Gillespie, só para citar alguns. Começava a lenda que iria ser ilustradada com discos, apresentações e consagrada com o soberano título de precursores do samba-rock. O primeiro álbum, ''Muita Zorra!'', foi lançado em 1971. Veio a consagração no Brasil onde se fizeram apresentações históricas ao lado de Vinicius de Moraes, Toquinho e Marília Medalha, numa turnê que passou por Londrina na década de 70 e também no exterior. A discografia solo é composta por cinco títulos, descontadas as participações em outros trabalhos.
Os anos passaram, outros estilos se sobrepuseram e o Trio Mocotó acabou se retirando involuntariamente do cenário artístico. Foram quase 25 anos de ''exílio''. A história viraria de repente, não mais que repente, a partir de 2002, quando Djs e produtores da Inglaterra, EUA e França redescobriram o que o Brasil teria encostado: o suingue saboroso do Trio Mocotó. Mais: o samba-rock tornou-se sucesso nas pistas do mundo todo. A nova geração da música brasileira (Djs, rappers, funkeiros)s também resgatou o suingue tipo exportação e o Trio Mocotó voltou a ser reverenciado.
Em 2001, os instrumentistas voltariam ao discos através do CD ''Sambarock'', lançado no Brasil e também na Europa, EUA e Japão. O mais recente álbum, ''Beleza! Beleza!! Beleza!!'' veio para retificar o que muitos já sabiam: o Trio Mocotó ainda é uma referência da música nacional. Com a aposentadoria de Fritz Escovão, em 2002, a nova formação passou a contar com Skowa. Para o show de hoje no Cabaré, os Mocotós vêm com uma banda de apoio formada por Rogério Rochlitz (teclados), Elder Costa (violão) e Giba Pinto (baixo elétrico).
O repertório do show congrega antologias como ''Coqueiro Verde'' (Roberto e Erasmo Carlos ), ''Não adianta'' (Luiz Carlos Fritz) e algumas músicas que estarão no próximo disco. Não deverão faltar clássicos de Benjor ''Charles Anjo 45'', defendida com o autor no IV Festival Internacional da Canção de 1969, estaria no set list?
Uma coisa é certa: o cardápio musical de hoje será bem variado. Portanto, fartem-se! A seguir os principais trechos da entrevista que João Parahyba concedeu por e-mail à Folha2
É verdade que o Trio Mocotó foi batizado em função dos comentários de vocês sobre os 'mocotós' das moças de que usavam minissaias?
É a mais pura verdade. Nos anos 70 costumava-se usar a gíria mocotó para as belas pernas das meninas que usavam minissaia. E o grupo sempre foi chegado num belo mocotó.
Definir o Trio Mocotó como um grupo de samba-rock é o suficiente ou a arte de vocês é mais abrangente do que o termo pode sugerir?
O estilo samba-rock é um rótulo que a mídia inventou nos últimos anos para definir algo que faz parte da soul music nacional. É samba, mas não é samba-raiz, é soul mas não é rock. O Trio Mocotó nunca se preocupou em fazer um estilo de música e, sim, uma música alegre, bem-humorada, romântica, para dançar. Sendo uma música em que acreditamos, gravamos ou cantamos. Seja Paulinho da Viola, com quem já tocamos, seja com Tim Maia, Jorge Benjor, Jackson do Pandeiro, Chico César, Seu Jorge ou Rita Lee.
Vocês se consideram precursores do samba-rock ou um dos principais difusores do estilo?
Nós não nos consideramos nada além de músicos que acreditam no bem e na força da música brasileira. Somos da paz e do amor e contra a violência que existe hoje. Somos jedis até o fim. Talvez nos chamem de precursores porque sempre fomos percussionistas. E de difusores porque não desistimos e estamos até hoje por aí.
Jorge Ben, ou Benjor, é uma figura primordial na história do trio. Como se deu essa aproximação?
Foi numa jam session em 1969 com ele (Benjor) que surgiu a batida diferente de samba moderno. A aproximação foi como toda mágica que acontece na música: de repente e simplesmente!! Foi ele quem, na necessidade de dar um nome ao Trio que o acompanharia no Festival Internacional da Canção 69, deu o nome de Trio Mocotó
A trajetória do Trio converge para a boate Jogral, onde vocês acompanhavam diversos artistas como Clementina de Jesus, Cartola, o próprio Benjor, só para citar alguns. É verdade que vocês chegaram a acompanhar Duke Ellington?
Duke Ellington, Oscar Peterson, Earl Hines, Dizzy Gillespie, Michel Legrand foram alguns dos monstros que deram canja conosco.
Diante de tão longeva carreira pode-se dizer que o Trio gravou poucos discos. Em alguma época vocês se sentiram menosprezados pelas gravadoras?
Nós interrompemos a carreira no auge, em 1975, porque já era difícil concorrer com a disco dance, que tornou a música ao vivo uma raridade na época. Não achamos que o artista deva ter obrigação de gravar todo ano um disco, e sim de sempre tentar gravar o melhor possível, quando puder. Ainda somos menosprezados por gravadoras nacionais.
Vocês já foram chamados de cult. Que tal ser cult? O termo é bem-vindo?
Temos que reconhecer que é charmoso!! Quando você passou 35 anos ralando pra mostrar sua música e ela é reconhecida por outras gerações. O bom seria que não fôssemos cult, e sim que, junto com toda uma classe de músicos, pudéssemos viver e não sobreviver de música brasileira.

Serviço
- Show com o Trio Mocotó. Hoje, a partir das 22 horas, no Cabaré do Filo (Avenida Celso Garcia Cid, 1.342, entrada pela rua São Mateus). Ingressos a R$ 20,00 (estudantes e aposentados pagam R$ 5,00). A noitada no Cabaré continua com show da banda Denorex 80.

mockup