SHOW - 'Geminiana' da gema
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terça-feira, 08 de agosto de 2006
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Muitos londrinenses a viram cantar em barzinhos. Era ela e a turma da MPB de um lado e o povo das discotecas de outro. Mais de duas décadas depois de se mandar para São Paulo, a cantora Marcia Salomon decidiu resgatar algumas músicas que marcaram sua trajetória pelos palcos da cidade, gravando-as em seu novo álbum.
O disco, intitulado ''Geminiana'', é o terceiro e o melhor de sua carreira. Londrina foi escolhida para abrir hoje a temporada de shows do lançamento, que está chegando às lojas pelo selo independente Dabliú. Marcia, nascida em Pirajú (SP), cresceu na terra hoje infestada de pombos. Iniciou a carreira apresentando-se em bares famosos da época como Dunas, Chaplin e Cantinho.
Fez parte do Vivência, grupo de MPB de grande penetração entre os univeritários e do qual faziam parte nomes como Hélio Takeda e Hylea Ferraz, ainda atuantes no meio musical local. Depois, já em São Paulo, ela se consolidou como cantora gravando os álbuns ''Mundos e Fundos'' (1991) e ''De Lalá pra Cá'' (1997).
''Geminiana'' é dedicado a Roberto Menescal, seu ''padrinho musical'' e autor de quatro canções no CD. O repertório garimpa canções que fizeram parte da trajetória da cantora desde seus primeiros shows em Londrina. Traz desde o clássico ''Onde Anda Você'', de Vinicius de Moraes e Hermano Silva; às familiares ''Recado'', de Gonzaguinha; e ''Não Vale a Pena'', de Jean e Paul Garfunkel e gravada recentemente por Maria Rita.
Seu parceiro habitual J.C.Costa Netto colabora com oito composições, cinco delas inéditas ''Tons de Outono'', ''Bar do Alemão'', ''Adriana'', ''Gatinho com Novelo de Lã'' e ''Pro Meneca''. Marcia envereda por vários ritmos blues, samba, pop e bossa nova. Tudo com tratamento delicado, intimista, quase-acústico. A produção é de Alexandre Fontanetti, responsável pela maioria dos arranjos.
''Ele foi genial. Deu unidade às canções e valorizou a interpretação me deixando cantar à vontade como se estivesse em casa ou numa roda de bar'' explica ela. Marcia está rindo à toa. Fez o disco que sonhou e poderá vê-lo distribuído no exterior. A Dabliú está em negociação para colocá-lo no Japão e já deu o sim para o renomado selo inglês Cooking Vynil lançar uma compilação reunindo faixas de seus três álbuns. Esta, batizada ''Bosa Nova from Brazil - featuring Marcia Salomon'', sairá na Europa e Estados Unidos.
Como será o show? Você só vai cantar músicas de seu novo disco?
Vou mostrar todas as músicas do ''Geminiana'', com exceção da faixa ''Encostas do Rio'', além de duas músicas do ''Mundos e Fundos'' (1994) e duas do ''De Lalá pra Cá'' (1997).
Quando você veio pela última vez em Londrina?
Estive aqui há uns três anos, se não me engano. Fiz um show com o (Roberto) Menescal, antes de viajar com ele para se apresentar no Miden, na França.
Muita gente acha que você é londrinense ...
Eu nasci em Pirajú, interior de São Paulo, e vim para cá com dois anos de idade.
Quando você descobriu que seu negócio era música?
Eu sou de uma família de músicos. Sempre cantei e toquei violão. Quando criança, fui chamada uma vez para representar a escola para cantar numa outra língua. Cantei em inglês e fui reprovada. Levei uma buzinada da Tia Lucy, que era uma apresentadora famosa de TV da época. Mesmo assim, vi que meu negócio era cantar. Mais tarde, passei a cantar em bares, como o Dunas, o Chaplin, o Clube da Esquina e o Cantinho. Ah, o Cantinho, era frequentado por todos os artistas que cantavam na noite. Havia também a boate Dó, Ré, Mi, onde se apresentavam artistas como a Lena Mariano (irmã do compositor, arranjador e maestro Cesar Camargo Mariano), a Márcia e o Marcos Santos. Eu dava umas canjas lá. Mais tarde, o Hélio Takeda me convidou para formar o grupo Vivência, do qual fizeram parte a Hylea Ferraz e a Silvia Piffer. Fizemos muitos shows no Teatro Universitário entre 1978 e 1979. O grupo tocava música popular brasileira de raiz. Veja só: a gente tocava MPB durante o estouro da discoteca, quando havia concursos de dança todo final de semana na boate One Way.
E depois você se mandou para São Paulo.
Foi em 1982. Chegando lá, fiz aulas de violão e canto durante um tempo e comecei a fazer shows. Depois de fazer um show inteiro com o Roberto Menescal, ele me propôs gravar um disco. Foi assim que surgiu o meu primeiro trabalho. O Menescal é meu padrinho, está comigo desde o começo, por isso resolvi dedicar o novo disco a ele, além de homenageá-lo na canção ''Pro Meneca'', que tem letra do Costa Netto.
O Costa Netto é seu velho parceiro. Ele assina oito músicas em ''Geminiana''. Como você o conheceu?
Foi ainda em Londrina, em 1978, quando ele veio passar uma temporada e sabendo que eu cantava me apresentou algumas de suas composições. ''Fundo Falso'', que gravei agora, é dessa época. Lembro que a ouvi pela primeira vez na voz da Lena Mariano.
''Geminiana'' é um disco de resgates, de músicas que marcaram diversas fases de sua vida?
Ele foi feito com essa intenção, com a idéia de trazer músicas que fizeram parte do meu repertório da noite desde meus primeiros shows em Londrina. ''Recado'', do Gonzaguinha, também é daquela época. Assim como ''Onde Anda Você'' (Vinicius de Moraes/Hermano Silva), que eu cantava em serenatas. ''Não Vale a Pena'' (Jean e Paulo Garfunkel), que a Maria Rita gravou recentemente, eu canto há 16 anos. Então estava na hora de fazer um disco com essas coisas, um disco mais pessoal, já que o ''Mundos e Fundos'' era um trabalho quase autoral do Costa Netto que assinou todas as letras e o ''De Lalá pra Cá'' era um projeto de gravar músicas do Lamartine Babo com uma roupagem mais atual.
No disco, você passeia por vários ritmos samba, bossa, pop e blues. Há algum que sobressaia em seu gosto pessoal, que a leve a gravar um repertório exclusivo futuramente?
O problema é que cada hora quero uma coisa, fico aflita. Depois de lançar ''De Lalá pra Cá'', pensei em vários projetos sem conseguir executar nenhum exatamente por causa dessa indefinição. Já me pediram para gravar um disco só de blues, que é talvez o que mais me pega na veia atualmente. Quem sabe um dia. Mas eu não me considero uma cantora de blues, não queria essa classificação.
Você recebeu cobranças pelo fato do ''Geminiana'' sair só seis anos depois do disco anterior?
Nunca liguei para esse tipo de cobrança. Estou fora desse esquema de gravar um disco por ano. Dentro dessa loucura das majors (grandes gravadoras), o artista gasta um monte de dinheiro só para dizer que gravou, e vai ver nem é um projeto pronto. ''Geminiana'' está do jeito que sonhei, do tamanho certo, está representativo de minha história. Não tenho a ilusão que vou estourar nas paradas. O estouro só acontece se você paga jabá, quando tem música em trilha de novela e aparece no Faustão. Só que aí é negócio, é dinheiro. Então me dá um milhão, que eu faço dois. Mas não é essa a minha ambição, a minha expectativa. O que me importa é que o disco seja ouvido por quem está interessado em ouví-lo. E tem gente interessada. Quem quer ouvir determinada música, procura. Quem quer assistir a determinado show, procura. Não adianta ficar reclamando que a mídia não dá espaço. É uma postura conformista. Minha lei é: pare de reclamar contra o sistema, e vai cantar. O Oswaldo Montenegro não toca em rádio, não tem divulgação na mídia, mas seus shows estão sempre lotados.
Serviço:
- Hoje: Show da cantora Marcia Salomon. Horário: 21h30. Local: Rua Paraíba, 533. Tel. (43) 3334-0700.


