O alquimista dos sons, Hermeto Pascoal, vem encerrar o Londrina Jazz Festival. Ele se apresenta às 20 horas, acompanhado de seu grupo, no Anfiteatro do Zerão. Em caso de chuva, o show será transferido para o Londrina Country Club.
No palco, executará peças instrumentais já gravadas, além de composições inéditas. Como de praxe em suas apresentações, o roteiro se rende aos improvisos, favorecendo a liberdade criativa dos músicos. Sua última passagem pela cidade foi em 2002, quando comandou um workshop ao ar livre no campus da UEL, ocasião em que conheceu sua atual mulher a cantora gaúcha Aline Morena.
Morando em Curitiba desde o ano passado, o bruxo multi-instrumentista mantém uma agenda lotada de shows. ''Estamos tocando quase todos os dias. Na próxima semana estaremos no Uruguai e na Argentina'' conta ele, durante entrevista por telefone. Cultuado no exterior como um dos músicos mais originais do planeta, Hermeto é relegado a uma condição de semi-marginalidade no Brasil.
Com pouco mais de duas dezenas de discos gravados, lançou na última temporada o álbum ''Mundo Verde Esperança'', pelo selo Rádio MEC. Atualmente concentra-se na finalização de uma peça a ser apresentada pela Orquestra Sinfônica do Teatro Amazonas, em Manaus, no primeiro semestre de 2005. Fundindo o erudito ao popular, Hermeto virou referência para gerações de artistas, inclusive do exterior.
Fascinado pela experimentação, transformou objetos estranhos ao universo musical em instrumentos extraindo sons de chaleiras, serrotes, tamancos, baldes, garrafas plásticas, brinquedos, canos, máquinas de costura e molas de caminhão. Provocou furor também ao ''recrutar'' animais para participar de shows e gravações, como na ocasião em que colocou porcos no palco durante sua apresentação num festival de música popular brasileira promovida pela Rede Globo.
Em outro concerto, tentou inserir cacarejos de galinhas nos arranjos de uma música num festival em que participava ao lado da cantora Alaíde Costa. O ato foi censurado pela polícia, que o julgou subversivo. Inventivo, Hermeto Pascoal costuma ainda explorar sons insólitos esfregando as mãos no corpo ou batendo os pés no chão.
Logo mais, já em Londrina, ele estará se divertindo no palco do Anfiteatro do Zerão em companhia de André Marques (piano), Itiberê Zwarg (contrabaixo), Vinícius Dorin (sax), Márcio Bahia (bateria) e Fábio Pascoal (percussão). Caso chover, o show começa às 20h30 no Londrina Country Club. Como não há venda de ingressos, será respeitada a ordem de chegada do público e a capacidade do local. O salão, para no máximo 3,5 mil pessoas, estará aberto a partir das 19h30. A seguir, confira a entrevista que o bruxo concedeu por telefone à Folha Dois.
Seus shows costumam ser imprevisíveis, mas dá para adiantar alguma coisa para os leitores?
Vamos tocar músicas conhecidas dos shows e músicas que não foram gravadas e ainda nem têm nomes. Quando falo ''músicas conhecidas'', quero dizer aquelas músicas que, mesmo não sendo executadas em rádio, o público sempre quer ouví-las. Por isso, vamos tocar músicas já gravadas como ''Poré Poré'', ''Jegue'', ''Irmãos Latinos'', ''Árabe'' e ''Tamancos de Pilão''. E tem uma, na qual improvisamos com canos de alumínio, que é sempre aguardada pela platéia. Outro dia, uma pessoa veio me cobrar no camarim: ''por que você não tocou aquela música dos canos?''.
Você esteve há dois anos em Londrina comandando um workshop no campus da Universidade. Tem lembranças boas da ocasião?
Foi nessa apresentação que conheci a Aline Morena, com quem me casei. Ela subiu no palco, começou a improvisar e eu pensei: ''não vou deixar escapar essa morena''. No dia seguinte, ela me acompanhou até Maringá e deu uma canja no show que fizemos lá. Depois viajamos juntos para o Rio de Janeiro e decidimos nos mudar para Curitiba. Em Londrina, era para ser um workshop para 40 pessoas e apareceram 700. Foi maravilhoso.
A Aline já faz parte do grupo, ela vem a Londrina?
Ela não estará em Londrina, mas viajará comigo para uma turnê pela Argentina a Uruguai na próxima semana. Meus shows são variados. Eu toco com cinco formações diferentes. Faço show de piano-solo, com a big band (com a qual vou tocar em janeiro na Europa), com a orquestra sinfônica (com a qual estou preparando uma peça para ser executada na Amazônia no começo do próximo ano), com o grupo (que chamo de ''nave'') e em duo com a Aline. No formato de duo, fizemos várias apresentações este ano no Paraná em cidades como Pato Branco, Umuarama e na Capital. A Aline é muito talentosa e versátil. É cantora lírica, mas toca vários instrumentos. Em um ano, aprendeu a tocar piano, além de tocar zabumba e viola caipira. Como eu, ela gosta do inesperado. Eu chamo nosso duo de ''Chimarrão com Rapadura'', porque ela é gaúcha e eu sou alagoano.
Você lembra como foi seu último show em Londrina?
Foi há muitos anos, não recordo a data. Mas lembro que eu ainda morava em São Paulo e os músicos da banda eram outros. O show bateu o recorde. Foram seis horas de show. Emendamos de domingo para segunda. O dia chegou a clarear. Na época, um pouco antes, eu tinha me apresentado num festival de música popular brasileira da Rede Globo acompanhado de alguns porcos. Lembro que pedi um porco para o reitor da Universidade de Londrina e os estudantes foram atrás. Eu toquei com um porco ao vivo. Foi inesquecível.
Você deve receber muitos discos de artistas locais em cada cidade em que se apresenta. Dá para ouvir tudo?
Recebo muitos discos de outros países. Às vezes, chego num lugar e escuto as pessoas falarem que foram influenciados pela música do Hermeto. Eu ouço, não gosto da qualidade daquilo e ainda não vejo nada que se pareça com meu trabalho. Em geral, as harmonias deixam a desejar. Falta bom gosto, falta preocupação com os acordes. Mas na cabeça delas, estão fazendo música universal, que mistura todas as tendências e prima pela qualidade harmônica.
Como está a repercussão de seu último disco, ''Mundo Verde Esperança''?
O retorno de um disco é demorado. Ele precisa de um tempo para ser descoberto e ouvido. A distribuição é lenta. E a música que faço não toca em rádio popular e nem aparece na televisão, a não ser em rádios e tevês educativas. Mas disco, pra mim, é como um quadro na parede. As pessoas é que devem curtí-lo e eu tenho que partir para outro, embora eu prefira tocar ao vivo do que gravar. As pessoas falam: ''você tem 4 mil músicas. Por que não grava mais discos?''. Eu respondo que não adianta ficar empilhando discos. Eu tenho mais público do que muito mais gente que grava um disco por ano. O meu público prefere aguardar os shows.

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