Victoria Abril realiza hoje um sonho - sobe ao palco do Sesc Pinheiros, em São Paulo, para cantar, no Brasil, standards da bossa nova. Ela admite que está excitadíssima. É sua segunda visita ao País. Na primeira, há dez anos, para promover ''Uma Cama para Três'', passou sete noites sem dormir, querendo ver tudo o que a noite (e o dia) de São Paulo e do Rio tinham para lhe oferecer. Agora, o pique tem de ser menor porque ela precisa cuidar da voz. ''Para dar entrevistas, não importa a voz. Para cantar e, ainda por cima, bossa nova, a afinação é fundamental.'' Mas, se promete não virar a noite, na entrevista realizada no fim da tarde de quarta-feira, ela também garante que não vai ficar quietinha do hotel, fazendo gargarejo. ''Quero sair por São Paulo com minha câmera. Estou gravando imagens para um documentário que pretendo fazer sobre os lugares nos quais me apresento.''
Como a atriz Victoria Abril virou a cantora Victoria Abril?
Meu amor pela música começou aos 10 anos, quando ouvi meu primeiro disco de bossa nova. Antônio Carlos Jobim virou meu profeta, com direito a altar e vela. Aos 14, estudava balé clássico quando fui descoberta para o cinema. Há 30 anos estou na estrada fazendo filmes. Vou continuar fazendo, pois o cinema alimenta meu sonho, que é cantar.

Sua carreira de atriz vai patrocinar a de cantora?
Exatamente. Já está sendo assim. Tornei-me cantora porque quis, contra tudo e todos. E, como cantora, ganhei uma unanimidade que nunca tive como atriz. Nunca recebi críticas tão boas. Os críticos reconheceram que não sou apenas uma atriz que canta e isso é ótimo para mim. Me deixa muito feliz.

Não é arriscado cantar bossa nova em português e no Brasil?
Claro que é, mas por isso mesmo é tão excitante. Estou com 47 quilos. Emagreci muito com a correria, a excitação para produzir esse show. Eu é que trato de tudo. Não é que seja centralizadora. Mas é como já disse - ninguém nunca apostou nessa carreira, só eu. Termino fazendo tudo, menos tocar. Tenho acompanhamento de violão.

E o que a atrai tanto no canto?
O prazer. A gente demora dois ou três meses fazendo um filme e, depois, espera um ano pelo lançamento. Com a música, o efeito é imediato. Você canta, o público aplaude, pede mais, você canta de novo, e mais. Canto 22, 23 músicas no show. São como 23 orgasmos. Um show multiorgasmático.

No Brasil, você é conhecida principalmente como atriz de Pedro Almodóvar e Vicente Aranda.
Acabo de fazer um novo filme com Vicente e estou muito feliz porque Pedro está terminando o filme com Carmem Maura. Carmem é uma ex de Pedro, com quem ele está reatando. Estou na fila para ser a próxima ex a voltar, no próximo filme dele.

O que uma atriz ganha com um diretor como Almodóvar?
Pedro não mudou minha vida, mas com certeza aprendi muito com ele. O importante é evoluir. Adquirir maturidade, aproveitar o que a vida tem de bom sendo você mesma. Não adiantaria querer ser Marilyn Monroe. Houve só uma. Quero ser Victoria, assim como sou. Gostosa, bem proporcionada, necessitada de carinho.

Legal, mas me permita a liberdade de dizer que você é muito fresca.
E não é bom assim? Você quer comer fruta fresca, peixe fresco, por que não uma mulher fresca?

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