Curitiba Naná Vasconcelos, eleito pela revista norte-americana Down Beat o melhor percussionista do mundo por sete vezes, apresenta hoje e amanhã, em Curitiba, o espetáculo musical ''O Bater do Coração''. Mesmo com todo o prestígio conseguido no exterior, o músico pernambucano faz questão de manter suas raízes em tudo o que faz. ''A minha vivência fora do País não me fez perder a identidade'', contou Nana em entrevista à Folha2.
Segundo ele, a idéia desse espetáculo, que teve sua primeira turnê pela Europa, começando na Inglaterra, é trazer ao palco a integração entre a voz e o corpo, dando ênfase ao aspecto visual, o que ele define como música visual. Depois da Inglaterra o espetáculo foi exibido na França, Itália, Escandinávia, Alemanha e Japão. ''A intenção da música visual é transportar o público para lugares como a Amazônia, Pernambuco, incitar a imaginação e a transposição'', conta.
Naná Vasconcelos começou a tocar aos 12 anos com seu pai, numa bandinha marcial do Recife. O percussionista aprendeu a tocar todos os instrumentos de percussão, e, nos anos 60, se especializou em berimbau. No Rio de Janeiro ele trabalhou com um dos maiores intérpretes populares do mundo, Milton Nascimento. Em 1970, uniu-se ao grupo do saxofonista argentino Gato Barbieri, que esteve no Rio. Tocaram em Nova York e excursionaram pela Europa, com destaque no Festival de Montreaux, na Suíça, onde o músico encantou público e crítica. Ao término da turnê, Naná Vasconcelos fixou residência em Paris, na França, onde morou cinco anos e gravou o seu primeiro álbum, ''Africadeus'', em 1971.
Foi justamente neste período, quando morou na França, que o músico buscou inspiração para desenvolver seu trabalho atual, a música visual. Lá, Naná Vasconcelos trabalhou com crianças com limitações motoras, na década de 70. ''Trabalhar com o corpo foi muito interessante. Me inspirei e desenvolvi 'O Bater do Coração''', conta ele.
Quando voltou ao Brasil, Naná Vascocelos gravou o segundo disco, ''Amazonas'', em 1972. Outros três albuns (''Dança das Cabeças'', ''Sol do Meio Dia'' e ''Duas Vozes'') foram lançados quando o músico começou uma parceria com o pianista e compositor Egberto Gismonti. Naná Vasconcelos gravou também, entre outros compositores, com B.B. King, com o violinista francês Jean Luc Ponty e com o grupo de rock norte-americano Talking Heads. Em 1986, o percussionista retornou ao Brasil pela primeira vez depois de dez anos, com sua turnê recebida entusiasticamente pelo público.
Nos anos 80, o músico gravou o disco ''Saudades'', concerto de berimbau e orquestra. Depois, foi a vez de experiências com instrumentos eletrônicos, com os discos ''Bush Dance'' e ''Rain Dance''. O envolvimento mais direto com a cultura brasileira se deu através da direção artística de importantes eventos como o festival Panorama Percussivo Mundial (Percpan) e o projeto ABC Musical, além de participações especiais em discos de artistas como Milton Nascimento, Caetano Veloso, Marisa Monte, Mundo Livre S.A. e muitos outros. No Brasil, os lançamentos mais recentes foram ''Contando Estórias'', em 1994, e os discos ''Contaminação'' e ''Minha Lôa''.
Naná Vasconcelos é profundo apreciador da música alternativa. Para ele, os discos independentes, que são poucos em meio aos álbuns comerciais, têm se destacado pela qualidade musical, embora ainda falte muito espaço para sua divulgação. ''O público consome muita música descartável, que tem predominado no cenário atual. Tudo virou muito descartável. É uma temporada de sucesso, o que foi produzido vai para o lixo e se produz outra música do gênero. É claro que isso tem seu lado positivo, que é o social. Muitos compositores de sucesso imediato, acabam depois, ajudando a família, de origem pobre e instituições beneficentes. Isso é muito legal.''
Para ele, deveriam existir estações de rádio alternativas, justamente para a divulgação desse estilo musical, muito rico tanto na composição quanto na sonoridade. ''As demais estações não abrem espaço para a propaganda do estilo alternativo. Para elas não é interessante'', lamenta.

Serviço:
- Show com Naná Vasconcelos. Hoje às 20h30 e domingo às 19 horas, no Teatro do HSBC (localizado no Palácio Avenida, na Travessa Luiz Xavier), em Curitiba. Os Ingressos podem adquiridos no local a R$ 20,00 (clientes do banco tem desconto de 50 por cento). O show tem duração de aproximadamente 1h30.

mockup