"Shopping e Fucking" quer atrair nova geração ao teatro
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 11 de agosto de 1999
Por Beth Néspoli 
São Paulo, 12 (AE) - Sob direção de Marco Ricca, a peça "Shopping e Fucking", do dramaturgo inglês Mark Ravenhill, terá ensaios abertos ao público a partir de amanhã, no Sesc Pompéia, em São Paulo, onde estréia na quinta-feira. A atriz Silvia Buarque e os atores Ricardo Blat, Rubens Caribé, Edu Guimarães e Laerte Mello, também tradutor do polêmico texto, integram o elenco do espetáculo, que tem cenários e figurinos criados pela artista plástica Niura Bellavinha.
Primeira peça longa escrita pelo jovem Ravenhill, nascido em Haywards Hearth em 1966, a peça já foi traduzida em dez idiomas e, além da Broadway, encenada na Itália, Grécia, Alemanha, Holanda, Espanha, em Israel e na Escandinávia. Segundo Marco Ricca, a peça está para a geração atual como "Hair" esteve para a da década de 60. "Assim como "Hair" retratou a juventude do sonho, "Shopping" traça o perfil dessa geração sem perspectiva, os filhos do sonho desfeito."
Na Inglaterra, o espetáculo teve o mérito de atrair para o teatro uma garotada mais próxima dos shows de rock do que da atividade teatral e Ricca sonha em repetir o feito por aqui. "Tenho um imenso desejo de falar para a garotada sem subestimar sua capacidade de reflexão."
A crise do afeto, a desumanização nas relações interpessoais, as drogas, o consumo como válvula de escape e a falta de perspectiva são alguns dos temas abordados em Shopping. A peça gira em torno do triângulo amoroso formado por Lulu (Silvia), seu namorado bissexual, Robbie (Caribé), e Mark (Blat)
que dividem um apartamento. Mark vai trazer para o grupo um novo personagem, o garoto de programa Gary (Guimarães), enquanto Lulu faz a ponte com o traficante de drogas Brian (Mello).
Silvia recebeu o texto de Ricca ainda em inglês e, na primeira leitura, se assustou com sua contundência, mas foi atraída pela pertinência do tema. "Ele fala de coisas reconhecíveis, como nossa indiferença misturada à sensação de impotência diante da violência que já faz parte de nosso cotidiano." A atriz apaixonou-se especialmente por sua personagem, uma espécie de reserva de sensibilidade em seu meio.
"Ela é quem organiza a casa, cuida da comida, da sobrevivência do grupo." Na sua descrição de uma cena de assalto que presencia, no texto que escolhe para fazer um teste de atriz, em sua reação ao ouvir uma barbaridade de um cliente do serviço de sexo por telefone, entre outras cenas, seu comportamento revela ter preservado limites éticos ignorados pelos homens que a cercam.
Curiosamente, nesse ambiente de degradação de valores, o envolvimento afetivo é encarado como doença. Mark descobre sofrer desse mal numa clínica de onde é expulso justamente por envolver-se com outro interno. Como parte de seu processo de cura, ele procura o michê Gary, uma vez que pagar por uma relação sexual é o sinal claro de integração numa sociedade onde tudo se mercantiliza. O michê, por exemplo, especula que muito em breve as relações sexuais serão virtuais: encomenda-se um holograma criado de acordo com o desejo do cliente. De antemão, Gary planeja investir nesse promissor negócio.
"Sou um cara de sorte", diz Blat, refererindo-se à oportunidade de integrar esse elenco. "Com essa peça subo ao palco para falar de questões nas quais acredito: a urgência e o respeito que devemos ter para com a vida." Num dado momento, seu personagem diz: "Há muitos anos, tudo o que tenho sentido foi quimicamente induzido." Pouco depois se pergunta: "Será que ainda existe algum sentimento puro?" A peça não dá respostas e, segundo Blat, essa é a reflexão que ela propõe, a liberdade - tema da última fala de seu personagem.
"Quero que o público se identifique profundamente com os personagens e não só na casca; quero que o espectador saia do teatro com a sensação de ter revisitado um departamento dentro dele há muito não visitado."
Serviço - "Shopping e Fucking". Drama. De Mark Ravenhill. Direção de Marco Ricca. Com Edu Guimarães, Laerte Mello, Ricardo Blat, Rubens Caribé e Silvia Buarque. Duração de 1h45. Amanhã e sábado, às 21 horas; domingo, às 18 horas. Grátis (retirar ingressos com duas horas de antecedência). Teatro Sesc Pompéia. Rua Clélia, 93, em São Paulo, tel. (11) 3871-7777. Até domingo.


