"Shopping e Fucking" confirma profecia
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quarta-feira, 11 de agosto de 1999
Por Antonio Gonçalves Filho 
São Paulo, 12 (AE) - A simples suspeita de que a profecia pasoliniana poderia se confirmar provocou há mais de 20 anos uma revolta na Itália. Muitos intelectuais recusaram os argumentos do poeta e cineasta Pier Paolo Pasolini (1922-1975) quando este observou que toda uma geração de jovens haveria de erguer barreiras destinadas a confinar seus pais em guetos, acabando eles mesmos confinados em guetos opostos. Em "Shopping e Fucking" não existem velhos, apenas jovens consumistas ansiosos para serem consumidos - ou devorados, para usar mais uma vez a terminologia pasoliniana.
Vítimas da uniformização cultural, esses jovens integrados no circuito do consumo - ignorantes, bárbaros, subservientes - são os personagens dessa tragédia contemporânea sobre a falta de horizonte neste fim de século. O ocaso das ideologias, que levou esses jovens a um estado letárgico, ignorando a dor alheia, provocou também uma regressão moral. Cretinos absolutos, esses pequenos bárbaros confundiram seus semelhantes com produtos de supermercado. Não é assim que começa a peça de Mark Ravenhill, afinal? Por que, logo no início, Ravenhill fala de um casal vendido por um gordo de calça de tergal? Porque também para ele essa degradante violência é tão aceitável como reduzir seus personagens a vorazes consumidores de sexo e junkie food.
Decadência - Há uma incômoda glamourização da decadência em "Shopping e Fucking". Por outro lado, sua atualidade é assustadora. O casal vendido a um drogado por US$ 20 pode ser uma metáfora, mas os garotos imberbes e as meninas que se prostituem nas grandes cidades em troca da crack são assustadoramente reais. De quem é a culpa? Repetindo o coro das tragédias gregas, Pasolini achava que era dos pais. Eles provocaram uma situação atroz para os filhos, incentivando o consumo, provocando o desprezo pelas causas coletivas e inserindo essas crianças num circuito de dilacerante alienação.
Assim, o papel do "pai" em "Shopping e Fucking" acaba sendo feito por um traficante que tenta, sob ameaça, fazer um alienado casal de drogados perceber a beleza de um solo de violoncelo. Ravenhill, supostamente um autor revolucionário, admite nessa cena que a modermidade, ao expurgar o lirismo de seu convívio, acabou assassinando a arte. Esse excessivo desprezo de Ravenhill pelo projeto moderno é incompreensível. A música de Boccherini não torna o mundo mais civilizado.
Mutação - Essa mutação antropológica que fez nascer afásicos consumidores de crack é fruto da civilização de consumo
não da ausência dos mestres barrocos. Os novos mutantes criaram anticorpos contra aquilo que resistia de mais sagrado no coração do homem: a liberdade. São presas da moda, do consumo, da própria ignorância, do desejo de ser devorado pelo outro, porque não suportam a existência num planeta degradado. Civilização, confirmando Freud, é repressão. Ou dinheiro, como ensina Brian, o traficante da peça.
Parece natural que Ravenhill não dê conta de tratar de tantos temas complexos numa única peça: ausência do pai celestial, necessidade de um norte, avanço da bestialidade, violência sexual e a crise do mundo capitalista, entre outros. "Shopping e Fucking" toca superficialmente nesses assuntos com fúria verbal comparável ao discurso dos angry men ingleses nos anos 60. Não representa, assim, uma evolução dramatúrgica. É uma peça necessária, porque fala dos malefícios da padronização cultural imposta pela globalização, mas limitada em sua escolástica estrutura.
Alegoria - A cena do pequeno violoncelista identificado como presente de Deus para um mundo corrupto é exemplar. Ravenhill, de forma alegórica, associa o solista a um raio de luz que impõe certa ordem ao caos, ao universo em decomposição de um trio de drogados e de um jovem michê violentado pelo padrasto. A droga aparece, então, como um paliativo nesse mundo em que todos os valores e normas foram jogados ao lixo. Justamente porque a palavra cultura perdeu o sentido nessa sociedade, como suspeita Ravenhill. Mais uma vez, Pasolini já falava sobre isso nos anos 60. Os ingleses aprenderam tardiamente a lição.
No fundo, a visão de Ravenhill sobre a crise social é infantil. Ele assume o consumo como uma forma de cultura - e o apelo do título "Shopping e Fucking" não deixa dúvidas sobre como o autor lida com o fenômeno. De qualquer modo, é uma peça que faz pensar sobre o abismo que ameaça a todos, valorizada por um elenco de atores conscientes de seu significado.


