Sherman assiste no Brasil a encenação de peça de sua autoria
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 07 de abril de 1999
Por Beth Néspoli
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quarta-feira, 07 de abril de 1999
Por Beth Néspoli
São Paulo, 08 (AE) - O dramaturgo americano Martin Sherman está no Brasil especialmente para assistir à encenação de sua peça "Bent", criada em 1979, já montada em 38 países e pela primeira vez traduzida para a linguagem da dança pelo coreógrafo e bailarino Sandro Borelli. "Bent - O Canto Preso", com adaptação, coreografia e direção de Borelli, estréia amanhã no Centro Cultural São Paulo.
Vertida para o cinema sob direção de Sean Martins, "Bent" é a mais bem sucedida peça na carreira do dramaturgo, que atualmente mora em Londres. "Recém-saído da adolescência", Borelli assistiu, em 1981, à montagem brasileira dirigida por Roberto Vignatti e ficou impactado com o espetáculo, que considera um divisor de águas em sua vida.
"A peça tem um contundência absurda, sendo a um só tempo emocionante e simples", diz Borelli. "Bent", gíria inglesa para homossexual, tem como ponto de partida a perseguição de Max e seu amante na Alemanha nazista. Após a morte do amante, ele decide passar por judeu para sobreviver. Confinado num campo de concentração, conhece Horst e apaixonam-se e conseguem trocar afeto, apesar de todas as barreiras.
A versão para a dança era um desejo há muito acalentado por Sherman, "um apaixonado por dança". Tanto que, depois de "Bent", sua peça mais encenada fora dos EUA é "When She Danced", sobre a bailarina Isadora Duncan. Autor e coreógrafo consideram o tema tão atual e impactante hoje quanto na década de 70. "Segundo dados da Anistia Internacional, o Brasil é recordista em abuso de direitos humanos contra lésbicas e homossexuais", afirma Sherman. "Sou pessimista com relação à humanidade, acho que ela não evolui em linha reta, mas oscila entre fases de maior abertura e outras de total intolerância", diz Borelli. Apesar disso, crê na força de sua arte. "Acho que só o teatro tem realmente o poder de transformar as pessoas."
Que ninguém espere uma dança narrativa de Borelli, que optou por extrair a essência do texto. Ele dividiu o palco em dois planos: na frente, Max (Borelli) e Horst (Ricardo Freire) enfrentam a violência do ambiente e do amor surgido entre eles. No fundo, duas figuras femininas, Cristina Belluomini e Sônia Soares, funcionam como projeções dos personagens, de seus desejos reprimidos, das pulsões de amor e morte. Diante de um cenário despojado, Borelli ressalta que a iluminação de Domingos Quintiliano e a trilha sonora de Sérgio Zurawski têm importante papel no espetáculo.