Quase um mês após estrear no Rio de Janeiro, Brasília, São Paulo e em várias outras cidades brasileiras, finalmente chega amanhã a Curitiba o longa-metragem ''O Xangô de Baker Street'', uma adaptação do romance homônimo de Jô Soares, com direção do carioca Miguel Faria Jr. ''A resposta do público tem sido ótima. Quase 300 mil pessoas já viram o filme'', comemora. Segundo o diretor, a demora para chegar a Curitiba se deu apenas por questões técnicas. ''Não há muitas cópias da fita'', disse.
Na tela, o que se vê é o resultado de um profundo trabalho de pesquisa e ambientação de época, que traduz com fidelidade o Rio de Janeiro de 1886. O mais difícil e trabalhoso, conta o diretor, teria sido retratar os pequenos detalhes.
''Há um trecho do livro, por exemplo, que diz que 'o assassino dobrou a esquina da Rua do Ouvidor'. Foi super complicado para mostrar quais eram as vitrines da época e como era, enfim, a Rua do Ouvidor no final do século retrasado''. Ele diz ainda que a maior dificuldade com as locações se deu porque muitas construções da época já foram destruídas.
''Tivemos muito trabalho também para saber como era, por exemplo, o canudo usado por Sherlock Holmes para beber água de coco ou como eram as descargas das privadas da época'', conta, bem humorado.
Assim que leu o livro homônimo de Jô Soares, em 1996, Faria Jr. começou a pensar no roteiro do filme. ''Fiquei impressionado com a riqueza de elementos e pensei que a história poderia representar a oportunidade de realizar um grande filme, com alto potencial de venda internacional'', justifica. Segundo ele, ainda não há nada delineado sobre a carreira da fita no exterior.
A trama começa com a chegada da atriz francesa Sarah Bernhardt ao Brasil (a personagem é interpretada pela atriz portuguesa Maria de Medeiros). Após se apresentar no Teatro Municipal, ela encanta a platéia, incluindo figuras nobres como a do próprio imperador Dom Pedro II (vivido por Cláudio Marzo), de quem se torna amiga.
É a atriz quem sugere ao monarca que convide o lendário detetive inglês Sherlock Holmes (papel do ator português Joaquim de Almeida), para vir ao Brasil na tentativa de solucionar o caso de um violino Stradivarius que desaparecera misteriosamente. O instrumento havia sido um presente do imperador à viúva baronesa Maria Luiza (interpretada por Cláudia Abreu).
Quando Holmes e Watson (vivido pelo inglês Anthony O'Donnell) chegam ao Rio, encontram mais um crime a ser desvendado. Um ''serial killer'' começava a atuar nas ruas cariocas e, no corpo da prostituta assassinada, encontram estrategicamente colocada uma corda do violino.
Como uma crônica de costumes do Brasil da época, o filme mistura vários tons de narrativa, que vão do drama à comédia. ''Proporcionamos uma viagem através do comportamento daquelas pessoas, que viveram há mais de cem anos'', explica o diretor. ''Um dos objetivos é mostrar que alguns problemas sociais continuam parecidos'', comenta.
A escolha dos atores estrangeiros para alguns dos papéis principais foi apenas por questão de aparência física e facilidade com idiomas, garante Faria Jr. Também fazem parte do elenco Marco Nanini, Emiliano Queiroz, Letícia Sabatella, Marcello Antony, Caco Ciocler e Jô Soares, que interpreta o desembargador.
''Ele não se envolveu com o filme'', conta o diretor. As conversas com o autor, segundo explica, ocorreram apenas no início, antes da elaboração do roteiro. ''Poderia haver um constrangimento, já que eu teria que reduzir o seu livro'', diz.
Ao longo de todo o processo, a única sugestão de Jô Soares teria sido a escolha de Joaquim Almeida para o elenco. ''No final, fiquei muito feliz porque ele ficou feliz com o resultado'', comemora Faria Jr.
Otimista com o momento de retomada do cinema nacional, ele comenta que ''com o pouco que nos dão para fazermos nossos filmes, a resposta tem sido muito boa''. O diretor enfatiza que dos cerca de 30 filmes brasileiros que têm sido produzidos anualmente, aproximadamente três são excelentes, com reconhecimento inclusive internacional. ''E 10% é um número excepcional'', complementa.
Faria Jr. começou sua carreira cinematográfica em 1968. Seu último longa-metragem, ''Stelinha'', com roteiro original de José Rubem Fonseca, conquistou 12 prêmios no Festival de Gramado de 1990, incluindo melhor filme e diretor.
Ao seu lado em ''Xangô...'' está o produtor italiano Bruno Stroppiana; a dramaturga Patrícia Melo, que também é responsável pelo roteiro adaptado, e o co-roteirista Marcos Bernstein. Os figurinos são de Marília Carneiro e a cenografia de Alexandre Meyer. O longa foi produzido pela Sky Light Cinema Foto e Art Ltda e distribuído pela Sony Columbia TriStar Filmes of Brasil.

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