A versão paulistana do Prêmio Shell reuniu a classe teatral no restaurante Luciano Bossegia, anteontem, para a premiação dos melhores do ano 2000. Dentre os vencedores, Mário Bortolotto, do grupo Cemitério de Automóveis, foi considerado o melhor autor teatral do ano passado com a peça ‘‘Nossa Vida Não Vale Um Chevrolet’’. Bortolotto criou o grupo há 18 anos em Londrina e há cinco anos vem desenvolvendo um trabalho na contramão do cenário teatral paulistano, quebrando a resistência do mercado a novos autores e grupos.
Bortolotto concorreu com nomes de peso como Fernando Bonassi (Apocalipse 1.11 e Preso Entre Ferragens), Ênio Gonçalves (Cachorro) e Bosco Brasil (O Acidente). Quatro das cinco peças indicadas ao Prêmio Shell deste ano foram montadas pelos próprios autores. O discurso de Bortolotto, ao receber o prêmio e o troféu, chegou a surpreender a platéia, pelo tom educado e a ausência de palavrões.
‘‘Os novos autores são desprestigiados, não existe interesse em montar seus textos. As pessoas não vão atrás. Quando as companhias conseguem dinheiro correm atrás de autores estrangeiros e dos brasileiros já mortos, como Nelson Rodrigues e Plínio Marcos’’, disse ele, por telefone, à Folha 2 resumindo o teor do discurso. Ele ainda reiterou o desinteresse da classe teatral em conhecer novos autores. ‘‘Existem bons autores teatrais em São Paulo e que são desconhecidos’’, reconhece.
Para ele, a premiação representa um prestígio crescente em relação ao trabalho que desenvolve em São Paulo e uma atenção maior da mídia. O assédio sobre sua produção dramatúrgica também aumentou. ‘‘As pessoas me procuram interessadas nos meus textos’’, diz. Além disso, o prêmio representa o pagamento de algumas dívidas contraídas na montagem de ‘‘Getsêmani’’, texto que conta a história de um grupo de terroristas culturais que sequestram um editor de livros de auto-ajuda. A peça está em cartaz na Sala Experimental do Teatro Autusta, em São Paulo, até dia 8 de julho. O Cemitério de Automóveis também se apresenta em Londrina no próximo dia 8 de maio, terça-feira, na Sul Mostra Teatro, do Filo, com dois espetáculos: ‘‘O Cara que Dançou Comigo’’, às 21 horas, no Cine-Teatro Ouro Verde e ‘‘Getsêmani’’, às 23 horas, no Teatro Núcleo I.
Na 13ª Edição do Prêmio Shell, o grupo Teatro da Vertigem, dirigido por Antônio Araújo, recebeu os prêmios nas categorias direção (Antônio Araújo), iluminação (Guilherme Bonfante) e na categoria especial (pela pesquisa de linguagem cênica e dramatúrgica). O recebimento dos prêmios do Teatro da Vertigem foi marcado por discursos indignados contra a política cultural vigente em São Paulo. O diretor de ‘‘Apocalipse 1,11’’, montagem que fecha a trilogia iniciada com ‘‘O Paraíso Perdido’’ (1992) e ‘‘O Livro de Jó’’ (1995), fez um discurso emocionado e ressaltou a importância do trabalho colaborativo da equipe.
A atriz Etty Fraser, 70 anos, recebeu homenagem especial pela iniciativa do Fundo de Assistência à Classe Teatral, o Fact. O júri do Shell elegeu Paulo Autran (‘‘Visitando o Sr. Green’’) e Leona Cavalli (‘‘Toda Nudez Será Castigada’’) como melhores atores. Ainda foram contemplados Márcio Medina, pela cenografia de ‘‘Sacromaquia’’, com a Cia. de Teatro Balagan; Leopoldo Pacheco e Gabriel Villela, pelo figurino do musical ‘‘Ópera do Malandro’’, com a Cia. Estável de Repertório do TBC; e Pedro Paulo Bogossian, pela música de ‘‘Filhos do Brasil’’.

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