São Paulo, 02 (AE) - Estréia hoje "Gloria", remake que Sidney Lumet fez do clássico homônimo de John Cassavetes. Sharon Sharon assume o lugar de Gena Rowlands, mulher e musa de Cassavetes, no papel de uma malandra durona do Harlem que se vê cuidando de uma criança (Jean-Luke Figueroa), cujos pais, avó e irmã foram executados a mando do chefão da Máfia irlandesa (interpretado por George C. Scott).
É um momento inesquecível de cinema: para proteger o garoto sob sua guarda, Gena Rowlands saca da pistola e dispara. O filme é "Gloria", de Cassavetes, e o que impressiona é a elegância da atriz, vestindo um modelito Ungaro, o que não a impede de, sendo bela, ser também durona. O primeiro "Gloria" é ótimo. Dividiu o Leão de Ouro do Festival de Veneza de 1980 com "Atlantic City", de Louis Malle. Quem odiou "Gloria" (e o filme de Malle) foi Gláuber Rocha, que concorria em Veneza naquele ano, com "A Idade da Terra". Gláuber acusou a mostra de ter-se vendido ao cinemão de Hollywood, quis partir para a briga com Malle, insultou Cassavetes.
Tudo isso hoje é folclore, mas vale lembrar no momento em que estréia o remake de "Gloria". Chama-se "Gloria", de novo, e traz Sharon Stone no papel que Gena defendeu com tanta garra. Sharon é uma bela mulher, sensual até a raiz dos cabelos e uma atriz apreciável: basta lembrar "Cassino", de Martin Scorsese, em que ela deu um show.
Mas Sharon, nem com toda a boa vontade do mundo pode ser comparada a Gena, num papel que Cassavetes escreveu para sua mulher (além de atriz favorita). Só que não é o talento (ou a falta de) de Sharon que está em jogo nesta refilmagem. O filme é um desastre por conta da direção de Sidney Lumet.
É um cineasta de passado respeitável, principalmente por sua atividade nos anos 70, quando fez filmes como "Um Dia de Cão", com Al Pacino. Lumet já foi grande; não é mais. A refilmagem de "Gloria" é a prova. Vale retirar o filme antigo numa locadora (está disponível em vídeo) para sentir a diferença.
O começo até que promete. Gloria sai da cadeia em traje de noite, faz sensação no aeroporto. Os planos do interior do loft, quando ela tenta impedir que Kevin (Jeremy Northam) e seus sicários matem o garoto, têm uma estrutura interessante. Mas logo o sentimentalismo piegas domina a trama. Era o que Cassavetes conseguia evitar no filme antigo.
Na história dos dois filmes, Gloria toma sob sua proteção um garoto chicano cuja família foi trucidada. O menino também terá de ser eliminado. Ela se volta contra os criminosos que eram seus amigos para defendê-lo. O por que nem Gloria sabe direito. Ela nem gosta de crianças, como não se cansa de dizer. Mas o sentido materno fala mais alto. É um filme sobre o instinto da mulher. Assim como se liga ao menino, Gloria não pensa. Age. Cassavetes cristalizava isso na cena memorável em que Gena saca da pistola.
Para quem não viu o primeiro filme, o novo pode até ser razoável. Comparando-se os dois, o "Gloria" de Sharon não dá nem para a saída. A curiosidade é conferir como a nova Gloria tem a ver com Central do Brasil. Talvez o filme devesse chamar-se Central dos Estados Unidos. Também mostra uma mulher de moral duvidosa que se redime em contato com uma criança, sem atingir a discussão sobre a ética do belo filme de Walter Salles. Gloria. Suspense. Direção de Sidney Lumet. Com Sharon Stone, Jeremy Northam, Cathy Moriarty. Duração: 105 minutos. Distribuição: Paris Filmes

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