Shakespeare para jovens
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 10 de abril de 2003
Ubiratan Brasil<br> Agência Estado 
A leitura de um texto teatral exige um certo treino, pois a linguagem, oral unicamente, demanda uma reação imediata na imaginação do leitor. Com o objetivo de iniciar uma aproximação de um público jovem com as peças de um dos maiores dramaturgos da literatura universal, a editora Objetiva criou a Coleção Shakespeare, em que 12 títulos clássicos são vertidos para a prosa tradicional.
A responsabilidade dos textos é do escritor e tradutor Fernando Nuno e já foram lançados ''Hamlet'' (144 págs.) e ''Romeu e Julieta'' (132 págs.). ''Parti do princípio de que todos sabemos que Shakespeare é contemporâneo de todas as épocas e suas referências são muitas'', conta Nuno. ''Assim, meu primeiro passo foi reler toda sua obra, que foi escrita pensando principalmente nos atores que a interpretariam.''
Disposto a não diluir a densidade psicológica que imortaliza a obra de Shakespeare e também a não trair a linguagem do teatro, Nuno optou por fazer um texto altamente dialogado, em que as rubricas, ou seja, as indicações do que devem fazer os atores, foram transformadas em intervenções do narrador.
William Shakespeare, escreve Nuno no prefácio explicativo, tratou com igual competência o drama, a comédia e a tragédia, sempre com muita poesia numa linguagem repleta de imagens sempre deslumbrantes.
O principal objetivo é trazer Shakespeare ao leitor novo, independentemente da idade. Para isso, Fernando Nuno adotou também uma lógica arriscada: escolher um estilo contemporâneo, como se Shakespeare fosse brasileiro e vivesse no século 21, escrevendo sobre um drama ocorrido na Dinamarca medieval. ''A dicção é do português lido e falado no Brasil, sem gírias ou mesmo palavrões'', conta o responsável pelas versões. ''A integridade do conteúdo foi mantida, de forma coloquial.''
O resultado é um texto dinâmico, que sustenta o tratamento dos dilemas humanos que tornou Shakespeare um artista contemporâneo. ''Outra das minhas preocupações foi manter também o senso de humor do bardo'', conta Nuno. Ele lembra que Shakespeare escrevia para um grupo de atores de sua época, que contavam com uma determinada popularidade. Assim, para sustentar a empatia, era necessária a introdução do humor mesmo em momentos mais dramáticos, a fim de divertir o público.
A escolha por ''Hamlet'' e ''Romeu e Julieta'' para dar o início à coleção não foi acidental. São, provavelmente, as duas obras mais conhecidas de Shakespeare, cuja profundidade e densidade psicológica as transformam em obras referenciais. ''O famoso dilema de 'Hamlet', por exemplo, o 'ser ou não ser', pode ser interpretado sob diversas formas'', conta Nuno. ''Pode representar a dúvida da paixão (ser ou não ser amado?) como também da existência.''
Os próximos volumes da coleção são ''Sonhos de Uma Noite de Verão'' e ''Macbeth''. Além da tradução, o que desperta atenção é o projeto gráfico de Luis Stein, que reproduz, a cada capa, um detalhe do corpo, conferindo uma nova leitura à obra de Shakespeare, apontado por muitos como o inventor do humano.


