Shakespeare em velocidade máxima
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 20 de março de 1998
Zeca Corrêa Leite Curitiba 
O dramaturgo alemão Brecht dizia sempre que suas peças deviam falar do seu tempo, estar sintonizadas com a era em que estariam sendo encenadas. O Homem é o Homem, cartaz desta noite no Guairão, dentro do Festival de Teatro de Curitiba, segue à risca esse desejo - ela foi ambientada para 1998.
Shakespeare, que escrevia para as massas e não deixou para a história declaração semelhante a do alemão, está ainda mais contemporâneo. As consoantes de seu nome transformaram-se em endereço da Internet, como indica o título da montagem que os Parlapatões, Patifes & Paspalhões estão trazendo.
[email protected] conseguiu uma façanha difícil de acreditar. Num espetáculo que não ultrapassa as duas horas, os três atores do grupo conseguem representar toda a obra shakespereana. A peça estréia hoje no Teatro Fernanda Montenegro.
A velocidade comanda o espetáculo dos Parlapatões. Para se ter idéia, as 16 comédias do maior dramaturgo de todos os tempos foram sintetizadas numa sequência cujas cenas não chegam a cinco minutos. Como Hamlet e Romeu e Julieta, que estão noutro escaninho de sua obra, são os textos mais populares, ocupam um terço do texto.
Além das peças têm ainda escritos apócrifos, que estudiosos descobriram recentemente. Esta ousadia de síntese é creditada ao The Reduced Shakespeare Company, de Nova York.
Não há nenhum vislumbre de desrespeito ao artista de Stratford-von-Appon, como pode perceber-se pela presença de Bárbara Heliodora nesta história. Ela fez a tradução. Bárbara, todos sabem, é a maior conhecedora de Shakespeare no Brasil, de renome internacional. Inflexível nas suas críticas, é a temeridade do teatro nacional.
Brecht era incansável. Fez dez versões para O Homem é o Homem. Em Curitiba está a última, de 1928. O enredo original se passa na Índia, mas o diretor Alexandre Stockler preferiu situar a ação no nervoso Oriente Médio, antes de uma nova guerra.
No mais a trama é a mesma. Um pacato cidadão irlandês, Galy Gay, vai ao mercado comprar peixe e, como nunca diz não, aceita trocar sua identidade com o inglês Jeraiah Jip, soldado sanguinário. A mudança é boa para o sujeito pacato, que veste satisfeito o novo perfil.
Preso num templo tibetano, Jip perde a aura de guerreiro e em troca coloca a de um religioso, o monge chinês Wang. O espetáculo dá uma conotação explícita à exploração dos caça-níqueis televisivos em cima da fé da população - o monge aparece num telão.


