Curitiba – Shakespeare sem palavras, traduzido em sons e movimentos. Esta é a proposta do espetáculo ‘‘Sonho de Uma Noite de Verão – Fragmentos Amorosos’’, com a Cia. de Dança de Minas Gerais, sob direção de Gabriel Villela que fará sua estréia nacional dia 21 de março no Teatro Ópera de Arame, abrindo oficialmente o XI Festival de Teatro de Curitiba. A coordenação geral coreográfica é da diretora da companhia, Cristina Machado.
Onze anos depois Shakespeare está de volta com seus gênios das matas no festival curitibano. Foi com essa obra que Cacá Rosset inaugurou o Ópera de Arame e o próprio evento, depois de fazer sucesso com a montagem no Central Park, em Nova York. Desta vez os sonhos de uma noite de verão chegam de lugar mais próximo: o solo mineiro.
A Folha2 publicou no mês passado que ‘‘South American Way – Carmen Miranda, o Musical’’ estava cotadíssimo para ser o espetáculo de estréia do 11º FTC, segundo comentários de bastidores. Naquele momento realmente estavam em negociações tanto a vinda de ‘‘Carmen Miranda’’ como a obra de Villela. A complexidade do cenário da produção carioca praticamente inviabilizou a apresentação, segundo promotores do FTC.
Bem, o certo é que a magia shakespeareana estará em cena através de 25 bailarinos (dois são estagiários) da companhia, e da trilha sonora assinada por Daniel Maia, que entrou no projeto pelas mãos de Villela – também responsável pelos cenários e figurinos. Músico e ator, Maia criou uma overdose de sons que inclui com a mesma cerimônia (ou a falta de) as valsas de Strauss, viola caipira, sons ciganos, Beethoven, Mendelssohn, Ray Conniff, Orquestra Tabajara executando Zezé di Camargo e Luciano, Goran Bregovic, techno, underground, a clássica ‘‘A Marvada Pinga’’, sons da natureza e tudo o mais que remeta ao lúdico e aos sentimentos. ‘‘É uma poesia de sons’’, define Cristina Machado, diretora da Cia. de Dança de Minas Gerais, responsável pela coreografia do espetáculo.
‘‘Estamos trocando informações de dois vocabulários distintos no teatro’’, resume Gabriel Villela nesta junção teatro/dança que lança mão de alguns mitos mineiros para contar uma história universal. Enquanto no teatro canta-se a palavra, no balé o verbo é outro. Para colocar em ordem tudo aquilo que poderia (e deveria) ser feito, o diretor enfiou-se num hotel na floresta amazônica em Manaus e lá ficou durante quatro dias, no que ele chama de ‘‘viagem de pesquisa’’. Enfim, a sua peça teria que ter uma ‘‘floresta equatorial’’, pois por ela passeiam os seres elementais.
Na entrevista concedida por telefone à Folha2, Villela comentou que o espetáculo ‘‘está ficando bonito’’. Os ensaios saíram da sala do Palácio das Artes para um parque municipal de Belo Horizonte, bem ao estilo do mineiro que já fez o mesmo com grupos teatrais. ‘‘Estamos exercitando perto do povo’’, orgulha-se.
Exibir-se unicamente à classe artística e à crítica especializada ‘‘não está com nada. A arte tem que ser feita para o povo, tem que ser entendida coração, pelo sentimento’’, afirma. Gabriel Villela que trouxe para o Ópera de Arame ‘‘A Vida é Sonho’’, de Calderon de La Barca, estrelada por Regina Duarte, está curioso com esta nova produção naquilo que ele chama de ‘‘palácio de cristal’’. ‘‘A vocação daquela casa é para a dança’’, decreta.

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