Shakespeare de cabeça pra baixo
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de outubro de 2008
Patrícia Villalba<br> Agência Estado 
Debaixo de uma das jabuticabeiras carregadas do quintal da O2 Filmes, em Cotia (SP), o ator Pedro Paulo Rangel é quem melhor define ''Som & Fúria'': ''É uma minissérie sobre teatro, dirigida por um diretor de cinema e que vai passar na TV.'' Depois de se esbaldar na densidade, com filmes como ''O Jardineiro Fiel'' e ''Ensaio Sobra a Cegueira'', Fernando Meirelles escalou um elenco gigante e estrelado para refilmar a comédia escrachada ''Slings and Arrows'', que foi ao ar na TV canadense em 2003. O próprio Meirelles adaptou o texto, e divide a direção com Gisele Barroco, Toniko Mello, Fabrizia Pinto e Rodrigo Meirelles.
A série conta a história de uma companhia fictícia de teatro, residente do Teatro Municipal de São Paulo e especializada em montagens de Shakespeare, que está muito mal das pernas, à beira da falência. A âncora da história, que conta o dia-a-dia da trupe teatral, é o personagem de Felipe Camargo, Dante. Tão dramático e atormentado quanto um Hamlet, o ator de repente se vê à frente da companhia, que antes foi dirigida por Oliveira (Pedro Paulo Rangel). ''O Oliveira morre logo no primeiro episódio, atropelado. Depois, como fantasma, passa a assombrar o teatro e faz uma parceria com Dante na direção da companhia. Todo bom teatro tem o seu fantasma'', adianta Rangel.''
O descompasso entre o talento artístico e a vocação para os negócios tempera a série com graça e humor negro. ''Os atores da companhia são assalariados. No pano de fundo da história estão questões como a falta de patrocínios para o teatro e a dificuldade de se sustentar uma companhia'', adianta Felipe Camargo.
Na outra ponta da história, entre planilhas de gastos, está Ricardo, personagem de Dan Stulbach. ''Ele é o diretor financeiro da companhia, meio peixe fora d'água'', detalha Stulbach. ''Quando garoto, ele cantou numa peça, teve seu instante artístico. Mas é careta, exato, e está no meio dessa história porque teoricamente é o cara que discute dinheiro. É o cara do Excel.''
Stulbach defende Ricardo, diz que ele não é exatamente um vilão. Mas só o fato de ter de lidar com dinheiro e tirar lucros de Shakespeare já faz dele um sujeito controverso, no mínimo. É numa tentativa desesperada de Ricardo de trazer grande público para o teatro que entra na história o publicitário Sanjay - aí, Rodrigo Santoro aparece em cena.
Na minissérie, prevista para ir ao ar no começo de 2009, Santoro contracena apenas com Stulbach. Ele surge no set com cabelos estrategicamente grisalhos, lápis preto nos olhos, barba desenhada, suado de uma partida de tênis. Fora isso, sabe-se pouco: que é esotérico, um tanto picareta e que sabe ficar numa posição invertida de ioga com perfeição.


