Shakespeare com sotaque nordestino
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 23 de junho de 2011
Ana Paula Nascimento <br> <br> Reportagem Local 
Ricardo III protagoniza uma história de horror, com inevitáveis assassinatos para limpar o caminho que o levará ao trono, no final da Guerra das Rosas - conflito sucessório pelo trono da Inglaterra ocorrido entre 1455 e 1485. O desaparecimento de dois sobrinhos ainda meninos indica que foram mortos por ele - ou a seu mando. William Shakespeare usou da realidade e ficção para escrever ''Tragédia do Rei Ricardo III'', que o diretor mineiro Gabriel Villela monta com cores brasileiras para o Grupo Clowns de Shakespeare, do Rio Grande do Norte. ''Sua Incelença, Ricardo III'' aglutina maracatu, rock e forró, num espetáculo que, apesar da dramaticidade, arranca gargalhadas da plateia. O público poderá assistir à montagem hoje e amanhã, às 19 horas, no Zerão (ao ar livre, em uma arquibancada montada no gramado). Recentemente o espetáculo foi apresentado no Festival de Curitiba, onde foi ovacionado por dez minutos, no Largo da Ordem.
Apesar do texto trágico, que teve adaptação de Marcos Barbosa, o assistente de direção Fernando Yamamoto conta que o público, de maneira geral, se identifica com o personagem anti-herói de Ricardo III, chegando até a se divertir com as maldades dele. ''Ele é sanguinário, faz de tudo pelo desejo de poder. E é de um cinismo tão grande que chega a convocar o público para ser seu cúmplice'', afirma. ''Talvez este seja um dos pontos que dá brilho ao texto, já que Shakespeare consegue construir um tipo diferente de vilão'', acrescenta.
Primeira não comédia do grupo, que há 18 anos tem sedimentado uma carreira de sucesso, ''Sua Incelença,...'' exigiu mais de três anos de pesquisa da companhia junto ao diretor Gabriel Villela, que chegou a morar em Natal para finalizar o trabalho. O elenco é composto por Camille Carvalho, Dudu Galvão, César Ferrario, Joel Monteiro, Marco França, Paula Queiroz, Renata Kaiser e Titina Medeiros, que juntos se desdobram para dar vida a quase todos os 54 personagens que compõem a obra literária.
Durante a elaboração da montagem, o grupo se apresentou em comunidades de pescadores no interior de Natal, tendo um retorno bastante positivo da proposta dramatúrgica, que na verdade trata de um tema universal. ''As pessoas inevitavelmente se identificam com o personagem principal, que é muito próximo aos nossos 'reis' nordestinos e potiguares. A forma como ele, ardilosamente, elimina seus concorrentes à coroa para chegar ao poder, abraçando em um dia e matando no outro, é muito familiar às nossas referências políticas'', declara.
Para contar a trajetória sanguinária do nobre inglês, de vida intensa e curta (morreu antes de completar 33 anos), o grupo traz um espaço cênico que recria um picadeiro de circo. Em cena, três carroças e adereços típicos do nordeste, produzidos por Shicó de Mamulengo, um artesão do município de Acari. As ''incelenças'' (excelências) - gênero musical comum nos costumes fúnebres da região - foram usadas na trilha sonora, bem como o forró e o pop anglicano dos grupos Queen e Supertramp.
SERVIÇO
Sua Incelença, Ricardo III, do Grupo Clowns de Shakespeare (Natal/RN)
Quando - Hoje e amanhã, às 19h
Onde - Zerão


