São Paulo, 28 (AE) - Há três semanas "Shakespeare Apaixonado" está na lista dos vídeos mais retirados do InformEstado. Há cinco está na dos DVDs preferidos do público. O DVD disponível nas locadoras é o importado, com os diálogos originais, sem legendas. O DVD da região 4 (América Latina) chega nos próximos dias às locadoras. É um lançamento da Columbia (que lança os discos da Universal). Em vídeo, a fita é da CIC. Duas empresas diferentes, ambas faturando com o filme de John Madden.
Estréia amanhã (29) nos cinemas "Sonho de uma Noite de Verão" - de William Shakespeare, assim mesmo, com o acréscimo do nome do bardo ao título de sua peça famosa, uma das mais encenadas da língua inglesa. Shakespeare é o roteirista que Hollywood pediu a Deus. Só sendo muito ruim para estragar suas peças. O roteiro, justamente. Dos sete Oscars que "Shakespeare Apaixonado ganhou este ano, nenhum foi tão bem aceito quanto o de roteiro original, dado à dupla Marc Norman e Tom Stoppard. O de melhor filme foi contestado porque havia quem preferisse o parque temático de Steven Spielberg dedicado ao "Dia D" (O Resgate do Soldado Ryan).
O de melhor atriz para Gwyneth Paltrow decepcionou o público brasileiro, que torcia pela vitória de Fernanda Montenegro, muito superior em "Central do Brasil", de Walter Salles. Nada a opor às estatuetas de melhor trilha, direção de arte e figurinos, realmente impecáveis. Nem ao prêmio de melhor coadjuvante para Dame Judi Dench, extraordinária como Elizabeth I. Mas o Oscar de roteiro foi um triunfo da criatividade e da inteligência. Norman e Stoppard recriaram a vida e os tempos de Shakespeare. Interpretaram o artista por meio de sua obra.
Imaginaram o bardo, interpretado por Joseph Fiennes, em crise autoral no momento em que vai escrever uma comédia intitulada "Romeu e Ethel, a Filha do Pirata". Em desespero de causa, eles imaginaram que seu rival na época elizabethana, Christopher Marlowe, deu as dicas para o que terminou sendo "Romeu e Julieta". E imaginaram, ainda, que a tragédia famosa poderia ser baseada nos incidentes reais do romance entre Shakespeare e uma certa Viola, que se disfarça como homem para poder entrar no teatro. Uma certa ambiguidade na relação entre Shakespeare e Viola, disfarçada de rapaz, tem a ver, astutamente
com o homossexualismo que muitos especialistas atribuem ao escritor, com base em seus poemas.
De resto, o filme é uma fantasia hetero, celebrando o amor entre um homem e uma mulher. "Shakespeare Apaixonado" é encantador. Transpira o amor da representação. Estabelece um sutil jogo de travestis e transferências sexuais. Numa cena, é a própria Rainha Elizabeth I quem diz que sabe o que é ser uma mulher num papel de homem. Por melhor que seja o roteiro (e é ótimo), talvez não valesse tanto se não encontrasse em John Madden um diretor qualificado para dar às cenas o tom certo. Uma festa permanente para os sentidos, o filme beneficia-se da dupla central.
Gwyneth não é melhor atriz de coisa nenhuma, principalmente se comparada à grande Fernanda, mas tem uma graça que serve a Viola. Joseph Fiennes é carismártico como Shakespeare. Com tantos ingredientes dando certo, não admira que o filme seja favorito também nas locadoras. Serviço - "Shakespeare Apaixonado" (Shakespeare in Love). EUA, 1998. Direção de John Madden, com Joseph Fiennes, Gwyneth Paltrow e Judi Dench. Em vídeo: CIC, 122 min. Em DVD, Columbia, 124 min

mockup