Shakespeare ao alcance de todos
PUBLICAÇÃO
domingo, 15 de junho de 1997
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha 2 
Neste filme quebra-cabeça (calma, não se assuste: não é o que você está pensando) onde o assunto é Shakespeare e Al Pacino a peça-chave, todo momento é mágico. Ricardo III - Um Ensaio é uma busca ininterrupta onde o prazer é a mola-mestra. Prazer de se entregar à arte shakespeareana, prazer de usufruir de um texto de uma poesia espantosamente bela. Prazer, enfim, de compartilhar uma paixão que remonta há muito tempo, mais precisamente há décadas.
Mas afinal o que é este Looking for Richard, título como uma luva que o tradutor brasileiro preferiu ignorar, literalmente? Ao assumir a tríplice função de criador, diretor e intérprete, Pacino enveredou pelos caminhos trilhados por Truffaut em A Noite Americana e por Fellini e 8 1/2. Ele entrelaça a história de Ricardo III - o irresistível drama de Shakespeare sobre poder, luxúria e traição - com um olhar profundo nos processos de caracterização e envolvimentos dos atores e realizadores com a encenação. Pacino guia as câmeras numa brincadeira solta através das ruas de Nova York, chegando depois até o local onde nasceu o bardo. E finalmente rumo a uma montagem carregada de emoção da própria peça.
Shakespeare prêt-à-porterA ambição-fixação de Pacino: tornar inteligível e prazeiroso para o cidadão comum das calçadas um texto shakespeareano via de regra considerado difícil e obscuro. Para isso, o aplicado aprendiz de cineasta teve em mente apenas uma proposta simples mas atrevida.
Todas as questões que ele, Pacino, levantou em torno do texto, e todas as questões que ele, Shakespeare, propôs, não deveriam ser evitadas, mas encenadas. O resultado é um jogo esperto e divertido, pleno de surpresas. Nas ruas de Nova York, boné de beisebol ao contrário, expressão feliz de moleque travesso, Pacino interroga os transeuntes. Questão simples: Você conhece Shakeaspeare ?
Respostas preguiçosas, previsíveis, burocráticas. Ou repentinas, magnificamente inesperadas, como aquele arrebatamento lírico do cidadão nos degraus da biblioteca municipal da Rua 42, deixando Pacino, por uma única vez, sem voz. E dali, sem transição, para a Inglaterra. Lá, o ator se põe a ouvir John Gielgud e Vanessa Redgrave, esses monumentos britânicos detentores de uma espécie de Santo Graal shakespeareano e capazes de injetar um considerável complexo de inferioridade em seus coleguinhas americanos.
Neste meio tempo, em alternância com essas inspiradoras enquetes, uma apaixonante desarticulação de Ricardo III está em curso. Em segredo, os atores que Pacino reuniu, que aceitaram jogar seu jogo, são apanhados no calor das discussões, no desenrolar das leituras onde os pontos de vista se confrontam. A câmera não abandona este guia apaixonado, e o espectador se põe também curioso diante das reações que vai descobrir.
Visto que Pacino não obstante é um ator, neste momento ele é mesmo um pouco cabotino. Movimentos rápidos de olhos, palhaçadas: o repertório, vasto, é utilizado para antagonizar a mais ínfima porção de solenidade. Nada deve pesar, nada deve enfadar. Equilíbrio de virtuose, sensação de inspirada leveza.
Retrato de um déspotaAo se entregarem aos personagens, Pacino e seus atores - Estelle Parsons, Alec Baldwin, Kevin Spacey, Wynona Ryder, Aidan Quinn - quebraram quatro séculos de barreiras que cercavam um dos trabalhos mais complicados e intimidadores de Shakespeare. Através de Ricardo III - Um Ensaio o que se busca é compreender o background histórico do trabalho e os métodos aplicados por Shakespeare para desenvolver um retrato cativante de um déspota. O filme não é afinal o que muitos gostariam que fosse - uma varinha de condão que nivelasse Ricardo III e Domingão do Faustão. Mas é sem dúvida uma experiência muito bem-sucedida de Pacino no sentido de mostrar a obra do dramaturgo num formato nada tradicional e torná-la mais acessível ao maior número de pessoas.


