Sexualidade é tema recorrente nna obra de Catherine
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quarta-feira, 11 de agosto de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 12 (AE) - Quando "Romance" foi lançado na França, falou-se muito em uma frase de Jean-Luc Godard: o único cinema do real é o cinema pornográfico. A afirmação, provocativa
não deixa de divertir a diretora Catherine Breillat. Ela acha que seu filme nada tem de pornográfico - apesar de, entre outras sequências apimentadas, conter uma longa cena de sexo explícito entre a protagonista, Marie (Caroline Ducey) e Paolo (o ator italiano pornô Rocco Siffredi). "No entanto, antes de ser rodado, ninguém levava muito a sério meu projeto, nem mesmo o pessoal da Cahiers du Cinéma", disse ela em entrevista à AGÊNCIA ESTADO. Catherine tinha intenção de ir fundo no debate sobre a sexualidade feminina (tema praticamente único e obsessivo de sua filmografia) e, por isso, seus críticos por antecipação diziam que aquilo que ela desejava fazer não era propriamente cinema, pelo menos cinema entendido como arte.
"Romance" era um projeto que desejava realizar havia muitos anos. Ir até as últimas consequências na representação do desejo, mantendo-se, ao mesmo tempo, no domínio estritamente cinematográfico. Anos antes, ela fora a Teerã e lá participara em um congresso de mulheres.
Sustentara a idéia de que o cinema não deve ter nada a ver com a moral comum. Ele tem a sua especificidade enquanto arte. Pode - e deve - abordar temas que, eventualmente, causem problemas ou desconforto para as pessoas, sem por isso encaixar-se, automaticamente, nas categorias do pornográfico ou do obsceno.
Depois dessa visita ao Irã, Catherine passou a sustentar suas idéias com mais desenvoltura. Percebeu - com surpresa - que encontrava focos de resistência em seu país, mesmo de setores tidos como liberais, como é o caso da redação da revista Cahiers du Cinéma (que, depois, amou o filme e o colocou nos cornos da Lua).
"Achava estranho que uma sociedade que se dizia infinitamente mais livre que a iraniana, e é tida como laica e desenvolvida, pudesse oferecer resistência a um projeto desse tipo", diz. Depois, conformou-se ao raciocinar que as leis laicas não passam de ersatz (substitutas) das leis religiosas. A configuração social, afirma, leva as marcas da religiosidade, ainda que se proclame leiga e decrete separado o Estado da Igreja. Não há como discordar da análise.
Corpo ardente - Nessa sociedade, continua Catherine, há uma separação nítida entre aquele que dá o nome à descendência, o homem, e a mulher, vista como carne, receptáculo que vai gerar e parir uma criança. "Por isso, o corpo feminino é simbolicamente o campo de batalha desse jogo de poderes, no qual o homem ocupa a posição dominante." Por isso, afirma, a discussão e o questionamento desse poder se deve dar no nível mesmo do corpo, da carne, de uma maneira que ainda não foi contemplada seriamente por nenhum filósofo ou artista. Ela abre uma exceção para o canadense David Cronenberg, este sim um inventor ousado, que se tem preocupado em debater a fundo o mistério da sexualidade em filmes como "Crash".
Não é outro o objetivo de Catherine. ""Romance" é a história de uma mulher, Marie (Caroline Ducey) e três homens: Paul (Sagamore Stévenin), o marido que não funciona sexualmente; Paolo (Rocco Siffredi), seu amante ocasional; e Robert (François Berléand), o "pedagogo", que a inicia na arte do sadomasoquismo. Aparece ainda um quarto personagem, um garoto de programa (Reza Habouhossein) que ela aborda na rua para uma relação rápida e brutal.
Há uma maneira burra de entender o filme. Marie seria uma ninfomaníaca em busca do prazer que não encontra em casa. Catherine Breillat, ao contrário, quis pintá-la como a mulher que procura o conhecimento de si por meio de sua carne. Mais exatamente, por meio do martírio de sua carne. Por isso, em algumas sequências de filmagem, ela pedia que Caroline pensasse em Joana DArc, queimando na fogueira. Precisava dessa metáfora do corpo ardente para dar força à atuação da atriz.
A cineasta tinha consciência de que pisava em terreno ambíguo. Sabe que o cinema pornográfico mostra cenas de sexo, mas o faz de maneira degradante. O que diferencia "Romance" de um vulgar filme "X"? "Uma imagem não significa nada em si mesma, ela de fato revela um pensamento ou uma idéia; esse filme é meu pensamento, minha maneira particular de ver a questão sexual e política", analisa. Sua personagem, Marie, é alguém que busca a si mesma pela via do sexo. Não se trata de classificar sua conduta como obscena. "As leis religiosas só falam do sexo para transformá-lo em algo vergonhoso; ora, eu penso que é a censura que cria a obscenidade e não o contrário."
Nesse sentido, "Romance" tende a decepcionar quem procura nele apenas um artefato estimulante do ponto de vista sexual. Claro, há muito sexo nele, mas há também muita fala, muito discurso, muita teorização. É racional, quase cartesiano, na maneira pela qual discute um problema, a sexualidade feminina
a partir dos seus dados elementares. Marie realiza sua trajetória passando pelo sexo não-realizado (o marido), o sexo aceito (Paolo, emblema da virilidade), pelo martírio do corpo (Robert, o sadomasoquista, aquele de detém o segredo do gozo feminino), o prazer comprado e, finalmente, pela experiência redentora da maternidade.
A crítica e a polêmica - Talvez esse percurso um tanto previsível (a mulher só se realiza, finalmente, quando se torna mãe) tenha amaciado o potencial polêmico do filme. A própria diretora se surpreendeu com as reações em seu país.
"Romance ganhou uma crítica positiva quase unânime, com exceção do "Le Figaro" (de tendência conservadora) e um ou outro jornal sem importância", diz. Do "Libération" (progressista) ao "La Croix" (católico), todos a elogiaram. "A reação dos católicos foi a mais surpreendente, pois pensei que fossem odiar um filme que é, antes de tudo, profundamente anti-religioso." Ela jura que só depois é que se deu conta de que a protagonista se chamava Maria e dois dos seus homens levavam nome de apóstolo, Paul e Paolo.
Mas "Romance" não é apenas contra a religião e tudo o que ela implica em termos de dominação histórica sobre a mulher. É também contra o cinema pornográfico (com o qual paradoxalmente é confundido) e sua vocação para transformar atores e atrizes em objetos. Ela conta que hesitou muito antes de convidar Siffredi para fazer o papel de Paolo.
"Pensei que ele fosse recusar, pois é um star em seu trabalho, vive disso, mas ele aceitou e se saiu maravilhosamente", diz. Segundo Catherine, Siffredi tem plena consciência de que os filmes que produz, às vezes dirige, e protagoniza nada têm de artístico. São meros artefatos, cuja finalidade única é excitar as pessoas. De acordo com Catherine, Siffredi sabe que faz parte de uma indústria oportunista, na qual atua sem o menor sentimento de culpa. "É admirável, já que somos todos habituados a nos mover pela culpa quando o assunto é sexo", diz.
Catherine comprou briga também com feministas mais ortodoxas, em especial por causa das cenas em que Marie obtém prazer se submetendo a uma sessão de sadomasoquismo. Parece-lhe normal que uma ancestral história de submissão se transforme em reivindicação do sofrimento: "O masoquismo significa sentir a dominação e transformá-la em ato de amor", acredita. Mas ressalva que o relacionamento de Marie com Robert se assemelha ao de uma paciente e seu analista. Pela experiência da dor, ela pode realizar suas fantasias e, ao mesmo tempo, livrar-se delas. Seria, sobretudo, um ato de libertação. Numa das cenas mais provocativas do filme, Robert, civilizadamente, acompanha Marie enquanto ela dá à luz. O sádico tranforma-se em companheiro e humanista.
Perto de Buñuel - O relacionamento entre Marie e Robert é, ao lado da cena de sexo explícito com Siffredi, a parte mais polêmica do filme. "E, no entanto, expressa simplesmente o seguinte: ela vai em busca de alguma coisa de que necessita, mas não pode admitir nem para si mesma", explica.
Catherine concorda que, nesse sentido, "Romance" é muito parecido com "A Bela da Tarde", o genial filme de Buñuel sobre a mulher burguesa e casada (Catherine Deneuve) que só consegue realizar-se sexualmente como prostituta. "O tema dos dois é o mesmo, e é herdado de Púshkin, que o tratou na novela "A Dama de Espadas", diz.
Aliás, sua aproximação com Luis Buñuel é total. Lembra-se de que resolveu fazer cinema depois de assistir a dois filmes, "Viridiana", de Buñuel, e "Noites de Circo", de Ingmar Bergman. "Vi neles um mundo no qual me reconhecia, eu que não me reconhecia de maneira nenhuma no mundo real em que vivia." Construir esse mundo possível parece estar na base de todo o desejo de um artista que mereça o nome. "Romance" é o sétimo longa-metragem de Catherine. Ela já está preparando o próximo, "Fat Girls", sobre o relacionamento entre duas garotas adolescentes. Sexo, mais uma vez.


