São Paulo, 16 (AE) - Os brasileiros vão poder conferir em breve se existe mesmo uma "inovação" na forma de abordar a sexualidade na obra dos jovens dramaturgos ingleses. "Shopping and ...", de Mark Ravenhill, estréia no dia 13 de agosto, no Sesc Pompéia, em São Paulo, sob direção de Marco Ricca. Do mesmo autor, "Sleeping Around" estréia em outubro no Teatro Glória, no Rio, sob direção do inglês Paul Heritage, com Maria Padilha e Pedro Cardoso. Também no Rio, "Closer", de Patrick Marber, estréia no ano que vem com Renata Sorrah e, em setembro, a montagem uruguaia de "Closer" apresenta-se no Festival Porto Alegre.
O diretor Heritage, que passa metade do ano no Brasil e metade na Inglaterra, está diretamente envolvido em duas dessas produções: além de dirigir "Sleeping Around", ele atua como dramaturgo em "Closer". Em entrevista por telefone, Heritage discordou do caráter inovador desses textos. Segundo ele, desde os gregos até Nélson Rodrigues, passando por Shakespeare, vários dramaturgos souberam levar para o palco personagens cujas ações eram movidas por impulsos sexuais. "O sexo já esteve até na platéia, no caso do teatro elizabetano", ironizou. "A especificidade desses textos está na abordagem contemporânea do tema", argumenta.
Ele ressalta como uma das qualidades desses dramaturgos a de revelar a interferência da sexualidade no cotidiano por meio de personagens e situações plenamente identificáveis pela platéia. "Não sei se são textos para durar, se vão resistir ao tempo". Mas Heritage não vê de forma negativa a possibilidade de eles não permanecerem. "Seu valor está em falar diretamente para a platéia de nossos dias". "Entre os principais méritos de "Closer", por exemplo, está o fato de apontar a distância entre palavras e ação", diz. "Hoje em dia, falar sobre o desejo é muito fácil; outra coisa é fazer".
Numa sociedade onde o sexo é tema de programas de TV, enche páginas de revistas e invade a Internet, paradoxalmente, o relacionamento entre homem e mulher está a cada dia mais difícil. Esse paradoxo é investigado nessa nova dramaturgia. "Nos últimos tempos, a sexualidade de gays e lésbicas foi muito explorada e, talvez por ser vista como natural, a heterossexualidade ficou quase invisível, ninguém a investiga", lembra. "No entanto, hoje em dia, nada mais longe do natural do que a relação entre homem e mulher, dois seres absolutamente diferentes, cujo encontro é quase um milagre", brinca. "São as relações heterossexuais que essas peças investigam". Certamente uma boa razão para tanto sucesso.
Heritage cita como exemplo de plena identificação do público feminino uma fala da personagem que será vivida por Renata Sorrah, em "Closer". Ela diz que os homens se dizem livres, totalmente disponíveis, no entanto trazem malas carregadas para a relação. "Todos querem viver o presente, mas o passado e o futuro atrapalham", afirma Heritage. O que esses textos mostram, de forma bem contemporânea nas situações armadas em cena, não deixa de ser algo há muito conhecido: as frustrações do passado aliadas às fantasias de futuro interferem negativamente nos relacionamentos.

mockup