Sexta-feira 13
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 12 de setembro de 2002
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Se você tinha esquecido, não custa lembrar que hoje é sexta-feira 13. O dia não teria nada de mais não fosse pelo detalhe de ser estigmatizado como azarento pelos supersticiosos de plantão.
A fama vem de longe e ninguém sabe explicar direito como, quando e porque surgiu a associação da data com o mau agouro. O fato é que muita gente costuma levar a sério a crendice adiando compromissos importantes e deixando até de sair de casa para não sofrer um acidente de trânsito depois de se desviar de um gato preto na esquina.
Há quem apele às mandingas para se proteger dos supostos poderes malignos preparados pelo calendário. Uns batem o nó dos dedos três vezes na madeira ao acordar, outros vão para o trabalho carregando uma muda de feijão no bolso da calça. A astróloga Yara Ramos faz coro aos catastrofistas. Segundo ela, a conjunção cósmica não manda bons sinais para a terra. ''O dia será violento, agressivo e bastante pesado'' diz.
O explicação é que a lua estará em Sagitário formando uma quadratura com Marte, Mercúrio e Saturno. De acordo com suas previsões, poderão ocorrer acidentes, incêndios e explosões durante o dia. A mãe de santo Airá Lequê, por sua vez, não vê vínculos entre a data e a ocorrência de desgraças. ''As coisas ruins podem acontecer em qualquer outro dia, já que todos os dias têm seus altos e baixos. O importante é não deixar que as energias negativas entrem em nossa cabeça. Além do mais, para nós, toda sexta-feira é dia de oxalá (o orixá correspondente, no candomblé, a Jesus Cristo)'' diz.
Para os seguidores do Candomblé, os dias de oxalá são considerados dias de paz. ''Vestimos roupas brancas e tomamos banhos de ervas para fazer o descarrego'' conta a também mãe-de-santo Vilma Santos de Oliveira. No mundo dos terreiros, lembra ela, o carma de maldição recai sobre as segundas-feiras. ''Aí usamos tranças de palha da costa no braço para nos libertar dos maus espíritos'' revela.
A cartomante Marisa Victer também é contrária à vuduzagem corrente. ''Como muitos de meus clientes, vejo a sexta-feira 13 como um dia de sorte e não de azar'' afirma. A psicoterapeuta corporal Ana Maria Góes é outra que não vê nada de aflitivo na data. Argumenta que os supersticiosos acreditam no que querem acreditar.
''As pessoas inventam a realidade criando muitas vezes as condições para que o próprio azar se manifeste'' salienta. Vai na mesma direção o raciocínio de José Orlando Rodrigues, coordernador da Universidade Holística Internacional de Londrina. ''Se você coloca pensamentos negativos sobre uma coisa, ela acontece'' nota ele.
Por isso, ele recomenda muita meditação para espantar as eventuais nuvens cinzentas do dia: ''Respeitamos as visões e simpatias de cada um, mas convido a todos os esotéricos para que façam preces para combater o campo energético negativo''. A numeróloga Sônia Weil recorre ao tarô para interpretar as vibrações do dia.
No baralho, cultuado por místicos de todos os matizes, a carta número 13 é representada por um esqueleto segurando uma foice. O que para muitos leigos simboliza a morte, para ela tem o significado de transformação. ''O dia 13 predispõe à ruptura, à fuga da rotina. Ele favorece a faxina, a reforma da casa e à própria mudança de vida. É um dia propício para mexer nas estruturas e renovar-se'' explica.
Desmistificando ainda mais o folclore, Weil assinala que quem nasce no dia 13 é dotado de uma percepção mais aguda do que os demais: ''Ele vê o que está por trás das aparências, tem um olho de raio-x''.


