Uma primavera ranzinza, cinzenta, molhada, com muito vento e frio, teima em atrapalhar a movimentação da comunidade festivaleira nestes primeiros dias da mostra. Mostra que já deixou definida uma tendência inédita;: trata-se claramente de um festival de gêneros cinematográficos. Gêneros sim, só que a diferença, porém, é que aqui se trata de autores consagrados fazendo gênero, filmes de terror, de sexo, de guerra, melodramas, mas feitos com a grife de alguns dos mais prestigiados diretores do mundo, gente capaz de transformar o material banalizado por Hollywood em algo diferente e interessante.
Os asiáticos, por exemplo. O chinês Lou Ye, frequentador do festival nesta década, trouxe ''Spring Fever'', drama de alta tensão erótica que parte de dois duetos, um hétero, outro homossexual, evolui para um triângulo homo, volta a ser dueto hétero e termina como triângulo (e quase quadrilátero) homo-hetero mais ou menos platônico. Bem, só vendo mesmo para entender a trama.
O filme tem lá seus bons momentos, mas no todo é confuso como manifesto de crise de identidade sexual numa China que explode como potência, sem dar muito tempo e espaço para as pessoas olharem para dentro de si mesmas. Talvez seja esta a ideia. De resto, o diretor Ye já andou oficialmente proibido de filmar em seu país por cinco anos. Pela ousadia do que bateu na tela do Palais, pode ser que pegue outro tempo de gancho.
Vocês devem se lembrar de ''Old Boy'' e ''Lady Vingança'', filmes da ''trilogia da vingança'' (o terceiro é ''Mr. Vingança''), do coreano Park Chan-wook, ambos exibidos em Londrina e memoráveis pelo sofisticado estilo do cineasta, cultor da complexidade de roteiro e de uma forma que privilegia a violência como elemento essencial da narrativa. Pois ele está de volta, e anexou ao conjunto da obra o fator sobrenatural, estranhamente diluído em sangue. ''Thirst'' é filme de vampiros, mas não como os outros.
Um carismático padre católico vai à África como voluntário para contrair vírus mortal e ajudar a salvar as pessoas. Contrai de fato, e morre. Mas revive misteriosamente, e com muita sede de sangue. A partir daí, hemoglobina, luxúria e blasfêmias diversas se sucedem numa enxurrada de impressivos contorcionismos formais e muito nonsense. Quem ainda acha graça na polêmica entre o Vaticano e ''Anjos e Demônios'' deveria dar uma olhadinha nesta coletânea de afrontas. Perto dela, o filme de Ron Howard em estreia mundial parece piquenique de freiras.
E afinal o primeiro grande filme, uma pintura de melodrama romântico. ''Bright Star'' coloca novamente Jane Campion à altura dos grandes do circuito de festivais.
A vencedora da Palma de Ouro de 1993 com ''O Piano'' felizmente não demonstra o mínimo pudor ao narrar com extrema elegância e beleza a comovente, trágica história de amor entre o poeta John Keats e a jovem Fanny Brawne, entre 1818 e 1820. Volto a falar em breve deste momento de belo cinema e de criação poética, inclusive com uma entrevista com a cineasta.

mockup