Sexo, mentiras e perversões na crise do PT
O motel escolhido não foi o Crazy Love, nem o Feelings. A.C.B., 39, ex-metalúrgico e hoje deputado pelo PT, preferiu o bem nacional Motel Juparanã, à beira da vida Dutra, com sua fachada em desenhos marajoaras. Casado, com problemas de consciência, A.C.B., tinha se esvaído em amassos vãos com Maria de Lurdes, 25, durante semanas, sempre que ele vinha de Brasília. Maria de Lourdes... a linda companheira de grandes ancas, cabelos de índia, vagamente estrábica, mas de boca vermelha e dentes estrelados, como a bandeira do PT. Lurdinha, da Chapa Articulação de Esquerda, a mais linda sectária de Santo André. Agora, era para valer. E A.C.B. mordia aqueles lábios de romã com fúria e paixão, desde a entrada do Motel Juparanã e nem teve tempo de tirar-lhe a roupa, tal era a fome de amor que trazia de Brasília, onde discutira horas com a radical Sandra Sterling, ele que era da ala moderada do partido, nesta hora de crise. A.C.B. beijava Lurdinha com delírio, sentia-se descendo por um grande rio tropical, perfumado, coberto por bandos de aves brasileiras. De repente, estas imagens se esmaeceram e, em seu lugar, surgiu o rosto barbudo de José Dirceu, abraçado com a figura bigoduda do deputado Prisco Vianna (PPB-BA). A.C.B. ainda tentou lutar contra este vírus em sua mente, mas aos poucos a imagem dos deputados prevaleceu a Lurdinha, da Articulação de Esquerda, sentiu que a fome viril que a penetrava, entre beijos e roupas rasgadas dava lugar a um vazio ideológico, como a queda de um Muro de Berlim.
- Que que é isso, companheiro? - perguntou a moça.
- Como posso amar, se o povo sofre? - gemeu A.C.B., mentindo para a companheira Lurdes, o que só fez aumentar seu sentimento de culpa.
Lurdes era radical, mas foi compreensiva:
- Calma, meu bem, nosso amor pode ser também uma forma de luta contra o imperialismo...
- Eu sei, disse A.C.B., mas é que eu não consigo aceitar a idéia de fazer aliança com o PPB e apoiar o Prisco Viana para a mesa da Câmara, para isolar FHC e impedir a emenda da re-eleição. Não dá...
- Mas, companheiro, temos de criar uma posição bem firme contra o neo-liberalismo de FHC.
A.C.B. tremeu. Ele não concordava. Estava em plena crise. Aquela que os companheiros costumavam chamar de vacilação ideológica. Timidamente, discordou da linda índia vermelha de lábios carnudos.
- Meu amor, veja bem, a situação é complexa... disse A.C.B., enquanto desabotava o resto de roupa de Lurdes e ia se maravilhado com as descobertas. Suas coxas eram deslumbrantes, quando se revelaram sob a saia jeans, o sutiã negro mal continha os dois frutos dos seios. Lurdes era redonda e forte, parecia uma escultura de um Maillol socialista, pensou A.C.B. num sorriso, ele que gostava de arte, hobby burguês tão criticado pelos xiitas velhos de guerra, que o achavam meio bicha.
- Claro... amor... mas a globalização do mundo é inevitável e o PT não pode ver nisso apenas uma conspiração do CIA. Diante deste enigma, o PT está sem programa.
- A nível de quê? perguntou Lurdinha, torcendo-se lasciva na cama redonda.
- A nível de projeto político moderno, amor. A.C.B. adoçou a voz, com medo de quebrar o clima. O PT não pode conquistar Estados e prefeituras e depois impedir os companheiros de governar, como está fazendo com nossos irmãos Buaiz e Buarque.
- Não fala neles! Cooptados, traidores! Lurdinha parecia ter um estranho prazer em odiar.
- Eu odeio Buaiz e Buarque! - ela gritava, se esfregando no lençol de cetim.
A.C.B. era um conciliador, seu velho vício. Vendo os seios turgidos de Lurdes, abrandou sua veemência, beijando-a:
- Claro, gatinha, você tem razão, eles estão adotando posições neo-liberais, mas... é por falta de um programa nosso... mas não sei se devo falar nisso, sei que você pensa diferente...
Para sua surpresa, Lurdinha mordeu os lábios, ofegante:
á - Não! Fala tudo! Fala tudo, meu amor!
Seus olhos luziam de paixão. A.C.B. se excitava:
- O PT tem medo do mundo, tem uma fome de pureza que só nos leva ao isolamento.
- Vamos nos unir, companheiro, soprou-lhe Lurdinha lambendo-lhe a orelha, bem safada.
A.C.B. crescia em ardor:
- A esquerda tem de regenerar o seu projeto e desenvolver uma nova concepção de Estado, como disse o Tarso Genro em recente entrevista!
A.C.B. gostava de se ouvir. As palavras fluiam fáceis em sua voz de barítono. Voltou-lhe a confiança e A.C.B. notou também que a moça ficava mais trêmula a cada palavra sua. Os bicos roxos de seus seios ficaram duros quando ele falou em globalização, um gemido animal saiu-lhe dos lábios, quando ele disse que o projeto da esquerda não tinha mais viabilidade, as unhas vermelhas se lhe cravaram com ardor quando ele, mais excitado, beijou-lhe a boca passando-lhe baixinho a palavra mercado, como quem passa um chiclete. A.C.B. teve a certeza de que sua virilidade culta estava mudando a posição da moça, como, de resto, tentava fazer com o PT. A linda Lurdinha seria sua, ele que tanto sofria por ver o seu PT apoiando Maluf e ruralistas por falta de projeto.
- Meu amor, estamos diante de uma revolução tecnológica e isso provoca o surgimento de novas relações de produção. O PT não pode continuar com slogans abstratos!
Lurdes tremia febril em seus braços. Ela trincava os dentes e seus lábios vermelhos estavam pálidos. A.C.B. viu que suas palavras inteligentes surtiam efeito.
- Repete: relações de produção... isso, meu macho!... Você está lindo falando estas coisas. A.C.B. exultou, ele, que era chamado de boiola por sua posições moderadas, sentiu-se mais e mais viril enquanto Lurdes apertava-o com loucura entre suas coxas. Latejando de excitação, A.C.B. lançou seu mais rico slogan:
- Precisamos tentar uma terceira via, Lurdinha...
- Que é isso, meu amor? gemeu a menina.
- Terceira via, uma outra posição, querida...
Foi decisivo. Lurdes mordia as palavras com loucura. Sua língua virou uma sarça de fogo, enquanto ela gritava:
- Terceira via é... 69, não é? Meu pequeno burguês sem vergonha!... meu decadente gostoso!...
A.C.B. não entendia mais nada, mas foi entrando no paraíso... A luz lilás no espelho fumê refletia seus corpos enlaçados... Lurdes gritava de paixão:
- Meu pequeno burguês!... Meu neo-liberal! Devora a classe trabalhadora! Me exclui, me explora meu neoliberal! Explora a tua inimiga da Articulação de Esquerda, vai...vai!... Ohhhh... meu neoliberal de direta com posições perversas e cooptado pelo esquema da ala mais retrógrada do capitalismo! Vem, me posua, me expropia, meu maluf, meu prisco!!!...
Sem dúvida, foi humilhante para a sutileza ideológica de A.C.B., mas nunca mais ele viveria numa noite de paixão como aquela.





