Sexo explícito já não escandaliza
Quase ao final de duas horas de uma plácida, irritante e árida inércia em que nada praticamente acontece, surge a tal sequência explícita: num motel, a personagem Daisy (Chloé Sevigny) pratica sexo oral em Bud Clay (Vincent Gallo). Nenhum artifício, iluminação normal, nenhum clone, nenhum dublê, nada de efeito especial. A câmera mostra o ato em detalhe e se demora alguns minutos até a consumação. Em poucos minutos o filme termina, e uma longa e barulhenta vaia é o veredito. Desnecessária e gratuita no contexto, a cena foi esquecida à saída da sala. E o filme logo mais adiante.
Gallo é daqueles que não acredita em mandar alguém fazer aquilo que acha que faz melhor. Neste seu segundo longa (a estréia foi com ''Buffalo 66'', em 1998) ele não só dirigiu e interpretou como roteirizou, produziu, editou, fez a iluminação, empunhou a câmera e ainda foi diretor de arte. Tanto melhor, assim poupa tempo e trabalho, já que a responsabilidade por este estéril exercício de megalomania é única.
Neste interminável on the road, Gallo é Bud Clay, homem de duas paixões: corrida de motos e Daisy, um velho amor que ele tenta esquecer com outras garotas que cruzam seu longo caminho. E só. A exemplo do ''Paris Texas'' de Wim Wenders, Palma de Ouro em 1984, o filme tenta configurar e alinhar o espaço interior ocupado pela experiência traumatizante da dor com a vastidão de uma paisagem com efeito ainda mais devastador. Mas falha no método. A revelação final sobre o que causou o deslocamento de Bud e que de certa forma justifica suas atitudes de entrega e sofrimento chega até um espectador já completamente desestimulado e o sexo explícito não funciona como qualquer justificativa no contexto, pelo contrário, atua como anticlímax. (C.E.L.J.)





