Você ainda é BV? Ou BVL? Se não entendeu as siglas, não se preocupe, é apenas sinal que não convive diretamente com adolescentes. No ‘‘dialeto’’ dos que estão na fase mais efervescente dos hormônios, BV é ‘‘boca virgem’’ e BVL, ‘‘boca virgem de língua’’. E nesse universo atual, com apelo e pressão sexuais precoces e cada vez maiores, não dá para as escolas deixarem apenas para os pais a tarefa de orientar os filhos sobre sexualidade.
  Na Escola Educativa, de Londrina, há cinco anos vem sendo realizado um projeto de educação sexual voltado aos alunos da 4ªe 7ªséries, sendo ainda retomado dentro de uma linha mais filosófica com os alunos da 8ªsérie. Durante um bimestre, todos os alunos dessas faixas etárias têm a oportunidade de falar com liberdade e de forma natural sobre as mais diversas questões que envolvem um assunto que ainda é tabu em muitas famílias.
  Com os alunos da quarta série, aproveitando o conteúdo disciplinar que envolve noções básicas sobre a reprodução humana, a professora Viviane Lopes Azevedo amplia o assunto, trabalhando as mudanças corporais que eles já começam a perceber. Uma ideia interessante é que a turma é dividida por gênero: ela fica com as meninas, enquanto que o professor de Educação Física Junior Cesar Dias se reúne com os meninos. Em clima descontraído, o bate-papo pode acontecer na quadra de esportes, no pátio da escola ou no gramado.
  ‘‘Eles já demonstram bastante curiosidade e dessa forma se sentem mais seguros para fazerem perguntas. O objetivo é passar a informação correta e transmitir valores éticos, de respeito, auto-estima, evitando que procurem ‘fontes’ erradas como a pornografia, a internet’’, destaca Viviane. ‘‘Temos consciência que falar de sexo é algo delicado, mas também muito importante para suprir a curiosidade deles de uma forma inteligente e que evite a vulgarização’’, complementa Dias. Dentre os questionamentos mais comuns dentre os meninos, estão a forma correta de fazer a higienização do pênis e como é possível diferenciar o xixi da ejaculação. O trabalho ainda inclui uma visita à Maternidade Municipal de Londrina.
  Já para os alunos da 7ª série a orientação é mais voltada para métodos contraceptivos e doenças sexualmente transmissíveis. Sob a coordenação da professora de Ciências Cintia Melo Bernardi, a abordagem envolve jogos didáticos, palestras, indicação de filmes para os filhos assistirem junto com os pais e projeções do Portal Positivo, no auditório da escola, que traz informações detalhadas sobre o assunto no formato de animação. ‘‘A ideia não é incentivar uma vida sexual precoce, mas lembrar que para tudo há o momento certo’’, ressalta. Como parte do projeto, os alunos ainda fazem uma visita ao Laboratório de Anatomia da UEL.
  Na 8ª série o assunto é abordado pelo psicanalista Ailton Bastos, dentro das disciplinas de Formação Cristã e Psicologia Aplicada. ‘‘Nesse momento, enfocamos mais as questões relacionadas a sentimentos, expectativas psicológicas em relação ao sexo, valores’’, afirma Bastos. Após abordagem conceitual mais genérica, os alunos são provocados a fazerem perguntas e, em dado momento, de forma anônima, para se expressarem sem censura e com liberdade.
  ‘‘Fazem perguntas típicas da fase em que estão e muitos deles ficam aliviados por poderem dividir uma angústia que antes carregavam sozinhos’’, acrescenta o psicanalista. ‘‘Não cabe à escola a ‘autorização’ para que os alunos iniciem sua vida sexual, mas falamos da importância dos relacionamentos, do respeito ao próprio corpo e do outro, que virgindade não é doença e dos prejuízos da vulgarização da imagem da mulher’’, explica.
  Bastos destaca que na adolescência vivencia-se a fase do luto da infância, com o adolescente distanciando-se dos pais, e que ele se sente mais à vontade quando está em grupo, entre amigos, principalmente para falar de assuntos mais íntimos.

A vul­ga­ri­za­ção da se­xua­li­da­de
  Se­ma­na pas­sa­da, ­duas no­tí­cias re­gio­nais en­vol­ven­do se­xo e ado­les­cên­cia ga­nha­ram des­ta­que na­cio­nal. Te­ve o ca­so da gra­va­ção no ce­lu­lar de ce­nas de se­xo en­tre uma alu­na e ­dois alu­nos ado­les­cen­tes do Co­lé­gio Es­ta­dual do Pa­ra­ná, em Cu­ri­ti­ba, fei­tas no ba­nhei­ro da es­co­la, e di­vul­ga­da na in­ter­net. A ou­tra no­tí­cia en­vol­via a gra­vi­dez pre­co­ce de uma ado­les­cen­te de 14 ­anos, de Foz do Igua­çu, que te­ve tri­gê­meos.
  Em con­ver­sa com al­guns alu­nos da Es­co­la Edu­ca­ti­va, foi unâ­ni­me a de­sa­pro­va­ção das ati­tu­de dos ado­les­cen­tes dos ­dois ca­sos ci­ta­dos e ­eles afir­ma­ram que um pro­je­to se­me­lhan­te ao rea­li­za­do na ins­ti­tui­ção po­de­ria ter evi­ta­do ­tais trans­tor­nos.
  Na opi­nião da alu­na Maia­ra Sil­vei­ra, 14 ­anos, a edu­ca­ção se­xual ‘‘aju­da a dar ­mais va­lor ao pró­prio cor­po, ­além de es­cla­re­cer ­dúvidas’’. Ela co­men­ta que por vol­ta da 5ªe da 6ªsé­ries é co­mum a pres­são en­tre os co­le­gas pa­ra o pri­mei­ro bei­jo e con­de­na es­se ti­po de coa­ção: ‘‘Não fa­ço na­da por pres­são e ­acho ri­dí­cu­lo ­quem se sub­me­te a ­isso’’.
  Já pa­ra a alu­na An­ge­la Cu­bas­ki, 14 ­anos, fal­tou cons­cien­ti­za­ção e orien­ta­ção no ca­so dos ado­les­cen­tes no­ti­cia­dos. ‘‘É ne­ces­sá­rio que as me­ni­nas apren­dam a se va­lo­ri­zar pa­ra não se ex­po­rem mui­to e te­nham co­nhe­ci­men­to de co­mo evi­tar uma gra­vi­dez in­de­se­ja­da e doen­ças se­xual­men­te ­transmissíveis’’, apon­ta.
  A alu­na Ni­co­le Oka, 15 ­anos, sa­lien­tou que pa­ra ela a es­co­la tam­bém é res­pon­sá­vel pe­las ati­tu­des ci­ta­das: ‘‘­Acho que fal­tou orien­ta­ção ade­qua­da no ca­so des­ses ado­les­cen­tes e no ca­so da alu­na de Cu­ri­ti­ba é tris­te que ela não te­nha per­ce­bi­do que es­se ti­po de ati­tu­de cau­sa pre­juí­zo pa­ra ela ­mesma’’. (A.P.N.)

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