São Paulo, 10 (AE) - O sucesso da antológica montagem de "O Balcão", dirigida por Victor Garcia na década de 70, no Teatro Ruth Escobar, parecia estar abrindo caminho para traduções e montagens de várias peças de Jean Genet no Brasil. No entanto, ao contrário do que se esperava, poucas foram as montagens brasileiras de outros textos do autor francês, além de "O Balcão" e "As Criadas", ao longo desses últimos 30 anos.
Uma dessas raras encenações - da peça "Os Biombos" -, realizada em 1995 pela Companhia Teatro de Seraphim, com sede no Recife, foi dirigida por Antonio Cadengue, com tradução da carioca Fátima Saad. A montagem, elogiada pela crítica, infelizmente não saiu de Pernambuco. No entanto, a tradução acaba de ser editada pela Sette Letras na coleção "Dramaturgias", o que pode estimular não só a leitura da peça como outras encenações.
Edição inédita no Brasil, "Os Biombos" (223 págs., R$ 20) foi encomendada a Fátima por Cadengue, fundador da Companhia de Teatro de Seraphim e professor na Universidade Federal de Pernambuco. Ambos se conheceram quando cursavam Teoria de Teatro na UniRio, Universidade do Rio, em 1978. "Eu li "Os Biombos" pela primeira vez numa viagem a Paris e, desde a primeira leitura, decidi montá-la", conta Cadengue.
Segundo ele, a tradução era um problema, uma vez que a Fundação Jean Genet é muito rigorosa ao selecionar os tradutores da obra de Genet. "Eles já haviam aprovado o nome de Fátima na tradução de "Os Negros", também de Genet, e por isso a convidei", conta. "Ela topou imediatamente". Coleção - Organizada por ¶ngela Leite Lopes, a coleção "Dramaturgias" tem entre seus títulos a outra peça de Genet traduzida por Fátima, "Os Negros", e ainda "O Cid", de Pierre Corneille, e "Carta aos Atores", de Valre Novarina, autor francês contemporâneo. E a Sette Letras já prepara o próximo lançamento da coleção, "Zôo da Noite", de Michel Azama
com tradução de Edson Rodrigues.
O intercâmbio com a dramaturgia francesa tem mão dupla no trabalho de ¶ngela, responsável pela tradução de cinco peças de Nélson Rodrigues para o idioma francês. Entre elas, "Toda Nudez Será Castigada", cuja montagem dirigida por Alain Olivier integrou a edição deste ano do Festival de Teatro de Avignon. A coleção "Dramaturgias" conta com o apoio do governo francês por meio do Programa de Participação em Publicações que patrocina os custos de edição. Peça - "Os Biombos" foi escrito por Genet em 1958 e montado pela primeira vez em 1966 pela Companhia Jean-Louis Barrault-Madeleine Renaud, com direção de Roger Blin. "Trata-se de um texto prolixo, cheio de tramas que se confundem, mas extremamente interessante, que já deu origem a montagens muito bonitas em vários países", comenta Fátima.
A peça aborda as relações entre franceses e árabes, colonizador e colonizado, mas em nenhum momento de forma maniqueísta ou simplista. "Esse universo é tratado com a visão muito particular de Genet", argumenta. "Ele mergulha no mistério que é o fascínio existente entre colonizador e colonizado". Dividida em 16 quadros, a peça tem 60 personagens.
Há o plano dos vivos e o dos mortos, no qual árabes e franceses continuam convivendo e ainda um período de passagem entre um e outro. Depois da morte, a hierarquização entre europeus e árabes não faz mais sentido, ainda que algum rancor permaneça. "Lá, árabes e europeus convivem em suas diferenças, sem se desligar dos que sobreviveram e sem deixar de remoer velhas lembranças, sensações quase esquecidas", escreve Fátima no prefácio. "O reino dos mortos é o lugar onde se compreende o inevitável - que a vida brota da morte, origem e destino de todos nós", observa a tradutora. Instruções - No início e no fim de cada quadro, Genet dá instruções minuciosas sobre a montagem, até mesmo no que diz respeito aos cenários. "Será constituído de biombos sobre os quais as paisagens ou os objetos serão pintados", escreveu o autor. Ele considerou esse elemento de cenário tão importante que o transportou para o título da peça.
No texto, Genet enfatiza que as paisagens e objetos de cena devem ser pintados nos biombos, que se deslocam sem fazer barulho, deslizando sobre rodinhas de borracha. Ainda segundo Genet, diante de cada biombo deverá haver pelo menos um objeto real, como um balde, um bicicleta ou um carrinho de mão, cujo objetivo é provocar o confronto entre sua realidade concreta e os desenhos.
Cadengue ousou não utilizar os biombos sugeridos por Genet, mas chamou outra carioca, a cenógrafa Doris Rollemberg, para reproduzir em cena a idéia central do texto. "Em Os Biombos, Genet leva às últimas consequências o tema da representação presente em outras peças como O Balcão", diz Cadengue. Sa‹d e Leila, personagens centrais da peça, pobres e ladrões, simplesmente desaparecem, passam a não estar nem no mundo dos vivos, nem dos mortos.
"Sa‹d recusa transformar-se em um personagem como o Chicó de Ariano Suassuna, que compensa a miséria com artimanhas, ou seja, transcende a pobreza por meio da representação", completa Cadengue.

mockup