São Paulo, 15 (AE) - Nada menos que sete longas-metragens de ficção brasileiros foram convidados para concorrer aos troféus do Festival de Havana, que se realiza na primeira quinzena de dezembro: "Por Trás do Pano", de Luiz Villaça, "Amores", de Domingos de Oliveira, "Traição" (vários diretores), "Um Copo de Cólera", de Aluísio Abranches, "Através da Janela", de Tata Amaral, "Ação entre Amigos", de Beto Brant, e "Milagre em Juazeiro," de Wolney Oliveira. "Orfeu", de Cacá Diegues, e "O Primeiro Dia", de Walter Salles, serão exibidos fora de concurso.
No gênero documental, haverá também sete participantes nacionais: "Nós Que aqui Estamos por Vós Esperamos", de Marcelo Masagão, "Fé", de Ricardo Dias, "Santo Forte", de Eduardo Coutinho, "Cine Mambembe", de Laís Bodansky e Luiz Bolognesi, "A Pessoa É para o Que Nasce", de Roberto Berliner, "Copacabana", de Flávio Frederico, e "Uma Nação de Gente", de Margarita Hernandez e Tibico Brasil. A representação nacional terá ainda cinco curtas de animação e quatro desenhos animados.
Ninguém deve impressionar-se com o grande número de representantes brasileiros em Cuba. O Festival del Nuevo Cine Latino-Americano, nome oficial do evento, caracteriza-se exatamente pelo gigantismo. Durante os seus cerca de dez dias de realização são exibidas cerca de duas centenas de longas-metragens do continente, o que a caracteriza como a mais completa mostra do cinema latino-americano. O que deve ser ressaltado é a qualidade da representação brasileira deste ano, em especial no âmbito do documentário.
Além de "Nós Que aqui Estamos por Vós Esperamos", um bonito filme de montagem, há "Santo Forte" e "Fé", dois estudos sobre a religiosidade brasileira que podem muito bem disputar os principais troféus em Havana. "Fé" traça um abrangente painel de como o brasileiro se relaciona com a esfera religiosa. Aborda manifestações variadas, como a umbanda, o candomblé, o catolicismo, com um sentido visual muito apurado.
"Santo Forte" limita seu ângulo de análise, preocupando-se, apenas, em entrevistar os moradores de uma única favela carioca. O engenho e arte de Coutinho consiste em "universalizar" o que parece tão particular. Quer dizer, faz um corte vertical do "modo de operação" da sociedade brasileira, a partir de um único enfoque, o religioso. É um dos documentários nacionais mais contundentes dos últimos anos. Ficção - o âmbito da ficção, o que mais uma vez se nota é a diversidade da amostragem, característica mais óbvia da produção recente do Brasil. Há uma incógnita, "Através da Janela", o esperado segundo longa de Tata Amaral, que estreou com o radical "Um Céu de Estrelas" e manifestou intenção de continuar na mesma linha de pesquisa - a dimensão trágica nas relações pessoais da pequena classe média paulistana. Afora este, inédito
os outros são conhecidos, pelo menos por quem frequenta os festivais nacionais.
"Milagre em Juazeiro", de Wolney Oliveira, refaz a trajetória do padre Cícero Romão Batista, até hoje o maior ícone religioso do Nordeste. Oliveira, que estudou na Escola de Cinema e TV de Cuba, realiza um mix de documentário e ficção, mostrando as principais manifestações de fé que se realizam em Juazeiro, no Ceará, ao lado da história do padre, reconstituída com José Dumont no papel principal. "Por Trás do Pano" e "Amores" mostrarão aos cubanos aquele cinema brasileiro que procura esmiuçar o velho tema dos relacionamentos entre sexos. De maneira ligeira, no caso do primeiro; inspirada e profunda, no segundo. Há o thriller político "Ação entre Amigos", que relembra a luta armada, e duas adaptações: uma de Nélson Rodrigues (Traição) e outra de Raduam Nassar (Um Copo de Cólera).

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