Quem vai a um festival de rock, quer assistir aos shows de suas bandas favoritas, ou matar a curiosidade para ver aquelas que ainda não conhece mas já ouviu falar isso ou aquilo.
O problema é quando elas são convocadas para tocar depois de uma sucessão de atrações indesejadas, o que é a tônica nesse tipo de evento. Os organizadores do ‘‘Rock in Rio 3’’ tentaram, ao que parece, aliviar as incompatibilidades programando palcos diferentes e até noites específicas para cada gênero ou tendência.
Mesmo assim, há deslizes na escalação. Dá para acreditar, por exemplo, que as tietes do N‘Sync e da Britney Spears vão deixar Moraes Moreira cantar em paz durante sua apresentação? Ou que Carlinhos Brown sairá ileso do palco diante dos fãs do Guns N’Roses? Bem, é bom parar por aqui antes que algum leitor denuncie este jornal como incitador de badernas durante os shows, mesmo porque o ‘‘Rock in Rio’’ chega à sua terceira edição sob o bordão pacifista ‘‘Por Um Mundo Melhor’’.
O festival começa hoje, vai até domingo e prossegue entre os dias 18 e 21. A expectativa é de que 1,5 milhão de pessoas visite a Cidade do Rock, no bairro de Jacarepaguá, zona oeste do Rio de Janeiro. No Palco Mundo, o principal, desfilarão tanto artistas da safra Woodstock quanto expoentes da geração MTV. Assim como o Free Jazz Festival, que corrompeu sua proposta original em nome do ecletismo, o Rock in Rio também optou por um cardápio sonoro diversificado.
Além do Palco Mundo, três tendas abrigarão shows nos intervalos. A Tenda Brasil vai mostrar cantores e bandas nacionais. A Tenda Electro será voltada para o segmento clubber. E a Tenda Raízes privilegiará sons regionais, aquilo que a mídia gringa chama de world music. Entre as estrelas da festa, o canadense Neil Young é o mais veterano e talvez o mais venerado pelos demais participantes.
Seu show, que o traz pela primeira vez ao país, é um dos mais aguardados do festival. Aos 55 anos, acaba de lançar o álbum ao vivo ‘‘Road Rock VI - Friends & Relatives’’, gravado durante uma apresentação no Colorado. Outro destaque é o cantor e compositor Beck, que despontou como a maior revelação da cena alternativa americana nos anos 90 misturando folk, psicodelia, blues, indie rock, black music e bossa nova.
Seu último álbum, ‘‘Midnite Vultures’’, foi indicado ao Grammy nas categorias Melhor Álbum do Ano e Melhor Álbum Alternativo. A banda R.E.M, outra estreante em terras brasileiras, surgiu na década de 80 nas college radios americanas quando a moda ainda era ouvir pop inglês. Estourou no mundo todo para depois tornar-se uma banda errática à procura de identidade. Apesar das oscilações musicais e declínio de vendagens, o grupo de Michael Stipe mantém fiéis seguidores nos trópicos.
Já o Foo Fighters teve sua reputação queimada por aqui no ano passado, depois de confirmar e cancelar na última hora uma míni-turnê pelo país. Na época, falou-se que a banda liderada pelo ex-Nirvana Dave Grohl teria preferido aparecer na tevê no programa de entrevistas de David Letterman do que pegar o avião em direção à América do Sul. Fica a suspeita, embora ninguém da platéia vá querer retaliá-los amanhã durante seu show.
O Oasis, por sua vez, é o representante solitário do britpop. Amado e odiado em inversa e igual proporção, o grupo dos irmãos Liam e Noel Gallagher já provou sua potência ‘‘ao vivo’’ ao público brasileiro em 98, quando fez shows impagáveis no Rio e em São Paulo. Outra prova está materializada no recém-lançado CD duplo ‘‘Familiar to Millions’’, no qual 70 mil pessoas acompanham nas letras a voz de Liam durante um concerto em Londres no estádio de Wembley.
Mais pesadas, as bandas Deftones e Queens of Stone Age são as novatas que poderão surpreender no palco. A primeira é classificada pela mídia especializada como expoente do ‘‘novo metal’’, que tem como característica marcante a fusão de riffs distorcidos, grooves e vocais rap. Não é o caso. Pelas linhas de guitarra e vocais melodiosos, Deftones sugere mais proximidade com as bandas alternativas. Seu novo álbum, ‘‘White Pony’’, foi eleito o melhor de 2000 pela revista européia Kerrang!.
Já Queens of Stone Age tem sido apontado como o ‘‘novo Nirvana’’ pelos críticos. Todos levantam a bola da banda, especialmente depois de ouvir o segundo álbum deles, ‘‘Rated R’’. Já escreveram que a música ‘‘Feel Good Hit of The Summer’’, a que abre o CD, é a nova ‘‘Smells Like Teen Spirit’’. Para o grande público, porém, as duas bandas constituem presenças obscuras nas noites em que as grandes atrações serão respectivamente o Red Hot Chili Peppers e a dobradinha Sepultura/Iron Maiden.
O Iron, aliás, poderá contar com participação especial do guitarrista Jimmy Page (ex-Led Zeppelin). Outra grande afluência é esperada neste domingo, não por causa do Oasis, mas pelo show do Guns N’Roses. O grupo volta a tocar no país depois de uma passagem pelo segundo Rock in Rio, em 1991, e após sumir do showbizz por oito anos. Da antiga formação, sobrou o vocalista Axl Rose, que deve repetir no Rio o repertório do show que fez em Las Vegas há uma semana mesclando sucessos (‘‘November Rain’’, ‘‘Patience, ‘‘Live and Let Die’’ etc) com as canções do álbum ainda inédito ‘‘Chinese Democracy’’.
Nenhum dia do Festival, porém, receberá maior quantidade de meninas por metro quadrado na platéia do que a de quinta-feira. É a data da ‘‘noite teen’’, com shows da cantora Britney Spears e das boybands Five e N‘Sync. Para quem tem mais de 18 anos, o jeito vai ser se amoitar nos palcos paralelos, longe da histeria e dos chicletes.

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