Soar original na criação de uma telenovela é tarefa das mais difíceis. Enraizados na obviedade dos arquétipos folhetinescos, as tramas já abordaram inúmeras vezes as mesmas histórias de amor, intrigas e vinganças. Thelma Guedes e Duca Rachid, autoras de "Joia Rara" – que estreia amanhã às 18h15 na Globo –, não fogem à regra. No entanto, utilizam-se de alguns ingredientes para tentar diferenciar e valorizar a nova novela das seis: inspiração na filosofia budista e ambientação histórica no período que sucede a segunda Guerra Mundial – entre 1934 e 1945. "A base da novela é uma história de amor totalmente 'Shakespeariana'. A reencarnação de um monge é fruto dessa paixão, que vive em meio aos primeiros ecos da guerra e à boêmia da época", detalha Duca.
Para Thelma, outro grande diferencial do novo trabalho está na estética apurada, concebida pela diretora-geral Amora Mautner, sob o núcleo de Ricardo Waddington. "Vai ser difícil ver uma obra nossa que não tenha alguma coisa de fantasia. Faz parte da nossa assinatura. Então, é essencial ter diretores que acreditam no que a gente quer contar", elogia.
Mais focados com a suntuosidade das imagens do que com a história em si, Amora e Waddington, que, recentemente, trabalharam no mesmo esquema em "Cordel Encantado" e "Avenida Brasil", se preocuparam em criar, com fotografia de cinema e tons vermelhos, o cenário ideal para a história de amor de Franz e Amélia, de Bruno Gagliasso e Bianca Bin, e o nascimento da filha do casal, Pérola, de Mel Maia, suposta reencarnação do monge Ananda, de Nelson Xavier. "Sou obsessiva em relação ao conceito. Temos uma imagem linda, forte, formal e elaborada. E ainda exijo verdade do elenco", pontua Amora.
Com capítulos orçados em cerca de R$ 600 mil, a pré-produção da novela começou no final do ano passado, quando as autoras e os diretores foram até o Nepal pesquisar e procurar possíveis locações para a trama. Abordar o Budismo e não ir ao Tibete pode até soar estranho, mas a complexa relação entre o governo da China e a região limitaram as gravações. A saída foi abordar a filosofia de forma mais abrangente, englobando o budismo de toda a região do Himalaia e ambientando o núcleo em uma cidade fictícia. "Encontramos parceiros técnicos e fizemos cenas lindíssimas no Nepal. Optamos por um trabalho mais artesanal, sem grandes toques de tecnologia. Por isso, me orgulho bastante da cena que contou com 15 mil monges entoando mantras", detalha Waddington.
Outro destino importante e complexo para a equipe de "Joia Rara" foi o Valle Nevado, no Chile. A gélida região serviu de locação para retratar a escalada do protagonista e mais dois amigos – Eurico e Manfred, de Sacha Balli e Carmo Dalla Vecchia – ao monte Everest. Na descida, o trio enfrenta uma avalanche, causa da morte de Eurico e do desaparecimento de Franz. Este é ponto de partida da trama. A partir dessa experiência, o mimado filho do todo-poderoso Ernest, vilão interpretado por José de Abreu, é resgatado por um grupo de monges e acaba conhecendo a humilde e bela Amélia. "As gravações duravam quase o dia todo. O frio, o desgaste físico e a convivência com a equipe me ajudaram muito na construção do personagem", assume Bruno Gagliasso.
Nos estúdios da Globo, no Rio de Janeiro, as equipes de cenografia, direção de arte e figurino se preocupavam com os detalhes e a transição de quase uma década pela qual a novela passa ao longo da exibição. A diretora de arte Ana Maria Magalhães inspirou-se no parisiense Moulin Rouge para compor o núcleo do Cabaré Pacheco Leão. Comandado por Arlindo, de Marcos Caruso, o local exala música e sensualidade e representa o desbunde da época.
É o cenário perfeito para a disputa entre as coristas Lola e Aurora, de Letícia Spiller e Mariana Ximenes. "A Aurora representa a chegada do 'novo', a vanguarda, dentro da novela. Ela quer acabar com o reinado da Lola e se tornar uma grande estrela. Mas terá seus dramas também", adianta Mariana.

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