São Paulo, 02 (AE) - A vida, como já dizia o garoto do filme "Houve uma Vez um Verão", é feita de idas e vindas. Para cada coisa que levamos conosco, deixamos duas para trás. No caso do artista Geraldo de Barros (1923-1998), pioneiro da fotografia abstrata no Brasil e um dos maiores nomes do concretismo brasileiro, as coisas que ele deixou para trás foram retomadas no fim de sua vida e transformadas na série "Sobras", exibida, a partir de amanhã, no Sesc Pompéia, em São Paulo.
A exposição faz parte de uma grande mostra com 60 fotomontagens, exibição na TV Senac do filme "Sobras em Obras"
de Michel Favre, lançamento do livro "Fotoformas" e ainda duas conferências, uma do curador da mostra, Rheinhold Misselbeck, e outra do conservador do Musée de lElysée de Lausanne, na Suíça.
A referência ao filme de Roberto Mulligan ("Summer of 42", no original) é necessária para lembrar que, a exemplo daquela tarde quente de verão em que o garoto Hermie perdeu sua inocência, Geraldo de Barros tentou trazer para o presente algo que foi atirado no fundo da gaveta do passado. Literalmente. Essas "Sobras" são negativos de fotos rejeitadas que ele recortou e transformou em novas imagens.
Memória - No belo filme do diretor suíço Michel Favre, "Sobras em Obras", um dos favoritos do público na 23ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o próprio Geraldo, pouco antes de morrer, dá a chave desses trabalhos, em que as imagens remanescentes, quando recortadas, são confrontadas com o nada, onde antes existia um ambiente ou uma paisagem. Nossa memória, segundo ele, pode comportar lembranças tristes ou alegres, mas não sabe o que fazer com o refugo, a imagem rejeitada. No entanto, ela faz parte do mundo e deve ser incorporada, queira ou não o fotógrafo. Ninguém usa uma câmera impunemente.
Essa fragmentação bergsoniana do mundo, em que até os objetos conservam sua memória, esta lá para lembrar que foi justamente contra esse lapsus que Geraldo lutou a vida toda. Sua arte não existe em estado selvagem, mas numa relação honesta e concreta entre imagem e matéria. Quem tiver dúvidas a esse respeito poderá acompanhar meio século da espantosa produção do artista, na Galeria Brito Cimino, a partir de segunda-feira.
Bauhaus tropical - Das pioneiras experiências abstratas com a fotografia (anos 40) aos cubos de fórmica dos anos 80, a galeria vai expor pinturas dos anos 50, quando Geraldo participou do movimento concreto com Waldemar Cordeiro, além das gigantescas telas pop dos anos 60, época em que fundou a galeria Rex com Nelson Leirner e Wesley Duke Lee, o primeiro grupo a realizar happenings no Brasil. Para fechar o ciclo, estarão na mostra móveis desenhados por Geraldo, fundador da Unilabor (1954) e criador da indústria Hobjeto (em 1964, com Antonio Bione).
É emocionante, no filme, acompanhar o depoimento de um ex-funcionário da fábrica de móveis Unilabor, nosso embrião de Bauhaus. Empenhado em levar arte e beleza para o interior das casas burguesas, Geraldo criou uma filosofia de trabalho que transformou operários da Unilabor em sócios de seu empreendimento, transmitindo a homens simples seu ideário social
cultural e artístico. Favre, um diretor sensível, faz dessa ideologia de interação um filme em que dialoga com os recortes da derradeira série do artista. Ao se apropriar dos negativos de Geraldo e realizar com eles outra montagem, o cineasta suíço assume a iconografia do sofrimento de um homem afetado pelo avanço trágico da isquemia cerebral - e, portanto, ansioso para se libertar da inconsolável memória.
Não por outra razão, Geraldo classifica sua doença de "libertadora". Com ela rompe o cárcere da memória. A vida não mais retrocede à simples existência. Ele avança em direção à morte e deixa espaços vazios para que outros assumam a tarefa de os preencher. Geraldo avançou em direção à morte convicto de que rompeu com todos os limites, até mesmo sua tirania pessoal, ele que sempre foi um rebelde, que lutou contra sistemas políticos injustos e sonhou com a beleza nas paredes dos cárceres individuais que são nossas casas.
Parte dessa obra é analisada no livro "Fotoformas", da editora alemã Prestel, pelo quarteto formado pelo cineasta Michel Favre, o curador Misselbeck, o jornalista Marcos Augusto Gonçalves e o conservador do Musée de lElysée, Daniel Girardin. O músico e compositor suíço Peter Scherer, autor da trilha sonora do documentáro de Favre, também presta homenagem a Geraldo de Barros em dois shows, amanhã e depois, às 21h30, no Sesc Pompéia, tocando temas do filme ao lado do guitarrrista Amadeo Pace e do baixista Skuli Svreisson.
Esses shows acompanham a mostra da série "Sobras", iniciada pelo artista em 1996. Paralisado em decorrência da isquemia cerebral, Geraldo de Barros, a exemplo de Matisse, que fez colagens quando não pôde mais pintar, pegou a tesoura e retomou seu trabalho com a fotografia, iniciado nos anos 40. Essas mesmas 60 imagens selecionadas - entre as quais se encontram até retratos de família- estão também numa mostra paralela no Museu Ludwig de Colônia (Alemanha), seguindo depois para o Musée de lElysée de Lausanne (Suíça), o Musée de Grenoble (França) e o Museu de Arte Moderna de Nova York.

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