Sesc Ipiranga inicia série sobre os 500 anos da música brasileira
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 14 de abril de 1999
Por Antônio Gonçalves Filho 
São Paulo, 15 (AE) - Qualquer tentativa de contar a história da música erudita brasileira esbarra num problema sério de documentação. Muitas partituras da época colonial se encontram perdidas em armários empoeirados de igrejas e mesmo a produção mais recente não oferece maiores facilidades a seus possíveis intérpretes. Um projeto ambicioso vai tentar recuperar parte desse passado: chama-se "Brasil 500 Anos - Música e História" e começa amanhã (16), no Sesc Ipiranga, em São Paulo. O concerto inaugural reúne peças de compositores do século passado, como Nepomuceno e Carlos Gomes, além de autores contemporâneos como Villa-Lobos, Cláudio Santoro e Amaral Vieira.
Com curadoria da pianista Marina Brandão, o projeto traz de volta a São Paulo o maestro Roberto Tibiriçá, que há quatro anos não rege na cidade. Ex-assistente de Eleazar de Carvalho, Tibiriçá vai dirigir a Orquestra de Câmara Villa-Lobos, um ótimo grupo que tem entre seus integrantes o violinista Cláudio Cruz. Tibiriçá, entusiasmado com a proposta do Sesc, espera que o projeto sirva de estímulo para o governo assumir a publicação de partituras de grandes autores, pouco tocados no Brasil justamente por causa da dificuldade de acesso às suas obras.
O maestro cita o caso de Villa-Lobos, cujas partituras são publicadas com exclusividade pela editora francesa Max Eschig, detentora dos direitos de grande parte das obras do compositor brasileiro. "Vou reger os "Choros n.º 6" em Belém e tive de fazer várias correções na partitura enviada de Paris"
conta. A peça de Nepomuceno, "Suíte Antiga", que ele rege no concerto de amanhã, estreou na Alemanha há pouco mais de um século e só não apresenta o mesmo problema porque o neto do compositor, Sérgio, que mora no Rio, cuida pessoalmente das partituras, enviando cópias aos interessados.
Por essa mostra do concerto inaugural é possível imaginar os problemas que a curadora do projeto vai enfrentar até abril de 2000 para organizar os concertos mensais que acompanham, em ordem cronológica, a evolução da música brasileira. O projeto cobre da produção do Brasil colonial aos compositores modernos, passando pelos tempos do império, da República Velha e do Estado Novo.
"Há tempos venho tentando convencer o Ministério da Cultura a reeditar obras importantes do repertório erudito, porque a valorização da música brasileira depende da publicação dessas partituras", diz o maestro Tibiriçá, que dirigiu a Orquestra Sinfônica Brasileira durante quatro anos, até março do ano passado. Desistiu quando percebeu que era impossível dirigir uma orquestra em que os músicos ganham salários incompatíveis com suas funções. "Isso quando ganham, porque eles não estão recebendo nada desde novembro", afirma.
Para efeito de comparação, o orçamento anual da Sinfônica de Chicago é de US$ 48 milhões, enquanto o da Sinfônica Brasileira não chega a US$ 3 milhões. "Iniciativas como a do Sesc, de bancar projetos como "Brasil 500 Anos", valorizam não só a música brasileira como contribuem para tirar o músico erudito dessa condição de marginalizado", afirma Tibiriçá.


