SERRONI E O TEATRO BRASILEIRO
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quarta-feira, 25 de abril de 2001
Ubiratan Brasil Agência Estado 
Ao concluir seu curso de arquitetura, há 23 anos, o cenógrafo J. C. Serroni apresentou, como trabalho de conclusão, um estudo sobre os principais teatros de São Paulo. Tratava-se de um trabalho minucioso, em que detalhava tanto a importância histórica de cada palco como apresentava considerações técnicas sobre sua estrutura. Empolgado, Serroni decidiu que se tratava do ponto de partida de um projeto mais ambicioso, que apontaria os mais importantes teatros brasileiros, ao mesmo tempo um estudo histórico e arquitetônico de épocas diversas. A falta de patrocínio, porém, foi adiando a realização do plano até este ano, quando a empresa BrasilTelecom decidiu apostar no projeto. Assim, Os Teatros do Brasil deverá ser lançado em dezembro, quando será distribuído gratuitamente a bibliotecas, escolas, profissionais e estudantes da área teatral.
Foi uma vitória que divido com Fernanda Montenegro, comenta o cenógrafo, lembrando da argumentação decisiva da atriz para convencer a direção da BrasilTelecom a investir no livro. Ela reforçou a importância histórica da obra. Fechado o acordo, Serroni pôs em prática a experiência acumulada em sua carreira, marcada por inúmeras viagens pelo País em que visitava os principais teatros.
A obra prevê um levantamento de aspectos históricos e técnicos de todos os palcos brasileiros (por volta de mil, calcula o cenógrafo), dos quais serão destacados cem, escolhidos pela sua importância histórica e arquitetônica. São palcos que se confundem com a história da sociedade brasileira, comenta Serroni.
Todos os espaços cênicos serão identificados por uma foto e uma ficha técnica. Já os selecionados contarão ainda com um resumo histórico e depoimentos de artistas que tiveram passagem marcante em seu espaço. Assim, Paulo Autran vai comentar sobre o Teatro São Pedro, de Porto Alegre; José Célso Martinez Correa falará sobre o Oficina; Antunes Filho pretende relembrar seus principais momentos no São Pedro de São Paulo e no Sesc Anchieta.
O levantamento vai permitir que se desvendem fatos curiosos, como a lenda de que o Teatro Carlos Gomes, em Blumenau, foi construído especialmente para a vinda de Adolf Hitler. Ou ainda a verdadeira lista de personalidades que passaram pelo Amazonas, em Manaus. Também vai contar a história do mais antigo teatro em atividade no Brasil, o de Ouro Preto, inaugurado em 1870.
O trabalho de pesquisa vem sendo executado por um grupo de estagiários, que recolhe dados e documenta o teatro. Todos os Estados brasileiros estarão representados, com pelo menos um espaço cênico, garante Serroni, que conta ainda com a consultoria do arquiteto Robson Jorge Gonçalves da Silva, diretor do Centro Técnico da Funarte, que mantém um valioso acervo catalográfico iniciado pelo próprio Serroni e por Luis Carlos Mendes Ripper, há 20 anos. Atualizado, esse material serve como ponto de partida para o nosso projeto.
Além de coordenar a pesquisa sobre os teatros, Serroni prepara-se para outros dois eventos. No dia 10, ele estará em Londres para o lançamento do livro Stage Design. O autor, Tony Davis, selecionou os 12 principais cenógrafos do mundo dos anos 90, incluindo o brasileiro. No texto, Serroni é apontado como figura-chave no desenvolvimento do teatro e da cenografia no Brasil. Foi uma honra, pois estou ao lado de grandes ídolos, como Ralph Koltai e Ming Cho-lee, comenta.
Antes de viajar, porém, Serroni cuidou dos últimos detalhes da exposição Por Dentro da Cenografia, aberta ontem, no Espaço BNDES, no Rio. Ao percorrer um longo corredor, o visitante tem contato desde o processo de criação de uma cenografia até verificar o resultado final, com a exibição de trabalhos para peças como Rei Lear. Ao final, o público pode participar, escrevendo em um cartão sua impressão sobre a exposição, a exemplo do que já fizeram figuras ilustres, como Raul Cortez e Antunes Filho.


