Serra da Canastra em circuito off-road
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 02 de maio de 2001
Mary Persia Especial para a Agência Estado 
O sol já deixou o seu ápice e, além de insistir em dourar a pele, ilumina as cores do horizonte. O cenário é fascinante: a Serra da Canastra, mais exatamente sobre o baú (ou a canastra) a que o nome se refere. Depois de tirar a poeira do corpo, acumulada durante o trajeto percorrido pelo 4x4, na nascente do Rio São Francisco (que, aqui, mais parece um brejo), os aventureiros voltam para o carro. Carro? Que nada. Agora, a Veraneio mal-encarada transformou-se num restaurante. Mesas, cadeiras e guardanapos de linho compõem o que poderia ser uma miragem mas, felizmente, não é.
Quem gosta de uma boa aventura, mas dispensa o trabalho pesado e os riscos que envolvem um programa off-road, já pode ter seus desejos atendidos. Em São Paulo, uma empresa especializou-se em viagens para não-turistas e leva aventureiros para destinos como Serra da Mantiqueira, Pantanal, parques Intervales (SP), da Canastra (MG) e da Serra do Mar (SP) num esquema bem diferente dos pacotes tradicionais de turismo de massa.
Percebemos que o turismo ecológico está caminhando para o turismo convencional. Começaram a colocar 40 pessoas numa trilha de uma forma que não se vê trilha, bicho, nada, observa Luiz Del Vigna, criador da Nomad. Luiz, que trabalha há mais de 20 anos com turismo, toca a empresa com a sócia, Nancy Ashimine, desde 2000. Hoje, divide as aventuras off-road com as aulas para guias de turismo da Embratur.
Os clientes da Nomad estão na faixa dos 30 anos e são, na maioria, profissionais liberais principalmente das áreas de medicina e informática e estrangeiros que moram no País. Pessoas que não se importam em pagar mais para, com pouco conforto para o corpo, relaxar a mente. A Expedição Serra da Canastra, por exemplo, sai por R$ 750,00, com tudo incluso (transporte em veículo privado, hospedagem, todas as refeições e ingressos), exceto as bebidas do jantar e despesas pessoais como telefonemas e lavanderia. Nossa proposta é mimar o viajante, resume Del Vigna.
E mimo é o que não falta no programa para as nascentes do velho Chico. O carro, com dois a seis passageiros, parte de São Paulo num domingo, bem cedinho às 6 horas, rumo ao Parque Nacional da Serra da Canastra, 540 km adiante, pela Rodovia dos Bandeirantes. A bordo, jornais, revistas e o que a tripulação chama de entretenimentos mandibulares: barras de cereais, chocolates, biscoitos, frutas. Para acompanhar, de cachaça e uísque a refrigerante e água.
Uma parada para esticar as pernas e algumas horas depois, os viajantes chegam à entrada do parque, que abrange as cidades de São Roque de Minas, Sacramento e Delfinópolis. Basicamente, o parque tem duas partes: a alta (sobre a tampa do baú), coberta com vegetação de cerrado, e a baixa, coberta pela mata atlântica. É por esta que o passeio começa.
A primeira parada é na Cachoeira Casca dAnta, a primeira queda dágua do Rio São Francisco. Tem cerca de 170 metros de altura e fica no final de uma pequena trilha. Nessa altura, o Chico é não mais do que um menino: o cenário é de um ribeirão que forma algumas piscinas naturais.
Enquanto os viajantes mergulham para se livrar do calor e da poeira, é preparado um lanche de campo que inclui cinco tipos de pães, frios, queijos, peixe defumado, saladas, frutas frescas e desidratadas em determinados dias, há refeições mais refinadas de acordo com o gosto do freguês: shimeji na manteiga, espaguete à carbonara, bisteca no azeite (com louro, alho e manjericão) ou ainda filés, carnes brancas, costelas e legumes grelhados ao molho de maçã verde, gengibre, sal e shoyu. Basta especificar as preferências na ficha de inscrição.
No caminho de volta da cachoeira, é possível curtir o visual do final da tarde na área de fumantes do carro com poltronas acopladas ao teto do veículo que fazem a vez de camarote para o pôr-do-sol. Esse lugar privilegiado também é muito bem-vindo nos percursos dos dias seguintes. A Serra da Babilônia, o Vale dos Cândidos (sobrenome de praticamente todos os moradores da área) e a Cachoeira do Claro, entre outros, estão no roteiro.


