Guga Melgar/DivulgaçãoCena de ‘‘O Inimigo do Povo’’: pelo trabalho Paulo Betti foi indicado ao Prêmio Shell como melhor atorNum País em que indiscriminadamente crianças, jovens e velhos morrem às pencas, vítimas ora de águas poluídas, ora de remédios ineficazes e outras querelas, o drama vivido na cidade fictícia de Molendal - lugar paradisíaco onde ‘‘não há pobres pelas ruas, ninguém morre de fome ou frio’’ - é quase papel carbono.
A discussão sobre vida, morte, divisas públicas, impostos e etc., estão na peça ‘‘O Inimigo do Povo’’, que estréia esta noite no Teatro da Reitoria com Paulo Betti, Antonio Grassi, Giuseppe Oristânio nos papéis principais.
O espetáculo que trata com densidade um assunto político fez grande sucesso este ano no Rio de Janeiro, cidade que melhor recebe os besteiróis mas que acabou quedando-se ao trabalho dos profissionais. Pela montagem o diretor Domingos Oliveira foi indicado aos prêmios Shell/97 e Mambembe, na categoria de melhor autor (é dele a adaptação). Paulo Betti para o Prêmio Shell como melhor ator.
Confirmando a tese da superficialidade que invadiu os palcos nos últimos anos e a presença marcante de ‘‘O Inimigo do Povo’’, a crítica Bárbara Heliodora comentou que a peça levou à cena carioca ‘‘um nível de seriedade que andava abandonado’’.
AtualidadeEscrito há um século atrás, o texto de Henryk Ibsen continua atualíssimo. Isto porque estão em jogo valores humanos que se moldam de acordo com as convicções ou a falta de. A trama se passa na cidadezinha turística de Molendal, que tem sua base econômica nas águas termais, com altos poderes curativos. A descoberta desses poderes é do médico Tomas Stockmann (Paulo Betti).
Tudo vai bem até o dia em que o médico constata que as águas estão poluídas. Turistas e doentes correm risco de vida. A primeira providência é avisar o irmão Peter (Antonio Grassi), prefeito local. A solução encontrada é fechar as termas, trocar os encanamentos para ter as instalações devidamente saneadas.
Tudo estaria perfeito se não entrasse em discussão uma questão vital para o município e a política - a interrupção do turismo e o consequente aumento dos impostos. Peter Stockman não tem dúvidas sobre o que deve ser feito: simplesmente ignorar o perigo e levar a vida do jeito que está. O médico Tomas, até então um irmão cordial, torna-se seu inimigo.
Porém, o episódio ultrapassa as quatro paredes. Alastra-se para outros espaços, chega às páginas de jornais, ganha ares escandalosos e passa a influir diretamente nos negócios de outros moradores da cidade. Inclusive dos jornalistas, que a princípio ficam a favor do médico, e depois pendem para os lados do prefeito.
Por fim entra a comunidade de Molendal como um todo. A favor de qual dos dois irmãos ficará a opinião pública. A resposta está no espetáculo, que também dá uma definição sobre o vencedor na última frase dita no palco, antes de fecharem-se as cortinas: ‘‘O homem mais forte é o que está mais só’’.

mockup