São Paulo, 27 (AE) - A sensação é de um túnel do tempo do bom gosto: você liga o rádio e um locutor, falando em inglês (e dando um buenas noches para os novos ouvintes do México), anuncia que estamos prestes a ouvir mais uma transmissão ao vivo da NBC Symphony Orchestra, direto do Studio 8H. E eis que chega o seu líder: Arturo Toscanini, para reger o grupo. Bom concerto. Não adianta resistir, pois estamos de volta a 1939, levados pela Toscanini Concert Edition, um novo lançamento da fantástica série (pela qualidade e pelo preço das gravações) Historical, do selo Naxos. Os quatro primeiros volumes reúnem as "Sinfonias n.ºs 2, 4, 5, 7 e 8", aberturas, uma versão sinfônica do "Septeto" e o "Concerto Tríplice", todos de Beethoven. Que se danem os chiados.
Pois, em sua maioria, esses discos trazem a nata das gravações do compositor feitas por Toscanini dois anos após assumir a NBC Symphony, criada especialmente para o maestro italiano. Em muitos aspectos, essa integral beethoveniana de 1939 é superior mesmo às versões que fazem parte da imensa Toscanini Edition, lançada há alguns anos pela RCA. São discos como esses que nos ensinam para que diabos serve um maestro. No caso do temível Arturo, a resposta é fazer da orquestra uma extensão obediente a suas idéias musicais esplêndidas. Pouco importando se ele corre com os tempos ou não.
Essa rapidez não era a essência de il maestro, mas apenas um meio para que ele conseguisse imprimir vitalidade, fluidez e homogeneidade ao que regia. Ouvir Toscanini nunca é uma experiência relaxante. Como um mestre furibundo, ele nos puxa pelas orelhas ao longo de toda a partitura e só nos libera ao final, quando já estamos sem fôlego (você tem de respirar no ritmo do maestro), não sem antes nos dirigir aquele olhar devastador com que liderava seus músicos, grandes talentos que ele reduzia a miquinhos amestrados diante de sua ameaçadora batuta. O resultado justifica a tirania: não é uma orquestra de humanos que se ouve, mas som imaterial.
Que ainda assim chega, mesmo vindo do passado, pleno de dramaticidade. E, olhe que Toscanini nunca sacrifica a precisão milimétrica para arrancar um efeito. Tudo é natural, como era natural no italiano o seu senso de teatro, ainda que na música sinfônica (certo, algumas vezes, Beethoven pode soar algo marcial, como uma daquelas bandinhas de Verdi, mas é um pecado irrisório diante da clareza da arquitetura que ele nos revela). Não espere, é claro, a transcendência germânica de um Furtwaengler. Tenha, no entanto, a certeza de que ganhará, em troca, a paixão furiosa do italiano.
A jóia da coleção é, sem dúvida, o CD que traz Egmont, a versão do "Septeto" (arranjado pelo próprio regente) e uma gloriosa "Sétima". Que vigor e brilho. Podemos sentir o ritmo do maestro reverberando no peito, aumentando a nossa pulsação a cada corte ríspido que faz em seu fraseado, preciso e áspero como lixa. Pausa em Toscanini é a oportunidade de respirar de tamanha tensão e evitar o enfarte, quase certo. Ouça com drágeas de Isordil à mão, mas não deixe de devorar essa série.

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