'Serial killer' é a mãe!
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 21 de maio de 2002
Jackeline Seglin Reportagem Local 
Os dramaturgos argentinos Javier Dualte, Rafael Spregelburd e Alejandro Tantanian resolveram encarar uma empreitada inusitada. Escrever um texto para teatro a seis mãos. O resultado foi o espetáculo La Escala Humana, atração de hoje e amanhã, às 22 horas, no Núcleo I, dentro da programação do Festival Internacional de Londrina (Filo).
A experiência foi uma espécie de viagem de três pessoas sintonizadas a um território desconhecido: o outro. Foi muito trabalho. A maior parte do tempo para gerar o método de trabalho, já que não podíamos escrever uma parte do texto cada um. O processo foi surgindo aos poucos, conta Javier Dualte, que também é roteirista e diretor.
A proposta era evitar que o texto tivesse uma mensagem clara. O mote escolhido foi uma mãe de família que mata a vizinha com uma faca de pão no meio de uma feira. Os três filhos da assassina armam um plano para livrar a mãe da responsabilidade do crime, colocando em sua própria casa um policial que começa a namorá-la. A mãe comete um segundo assassinato e torna-se uma serial killer. Os filhos se vêem na obrigação de dar andamento ao plano.
Javier Dualte explica tratar-se de um melodrama em que os personagens crêem estar vivendo um policial. Na verdade é um procedimento de comédia, não o procedimento de um sentido. É como se fosse um drama social com um argumento estúpido, diz.
Sobre o título La Escala Humana, Rafael Spregelburd (ator e diretor) justifica que a peça é um policial visto da escala incorreta. Uma mãe que assassina a vizinha numa feira... Em que escala podemos avaliar isso? O título tem a ver com esse questionamento, comenta. Esta obra que parece uma tolice tem tanto conteúdo de realidade quanto o conteúdo de realidade do espectador, salienta Javier.
O trio assume não gostar de textos que tragam mensagens, denúncias ou algo do gênero. Confunde-se muito teatro político com teatro que fala de política. É diferente, porque no teatro político o conteúdo já está na cabeça do espectador. Acredito que frívolo é repetir o que dizem os jornais, argumenta Rafael. Nosso teatro é pensar as coisas e não omitir opinião sobre elas, finaliza Javier Dualte .
SERVIÇO
La Escala Humana de Javier Dualte, Rafael Spregelburd e Alejandro Tantanian (texto e direção), da Argentina. Cenário: Jorge Macchi e Oscar Carballo. Sonoplastia: Nicolás Varchausky. Iluminação: Diego Angeleri. Duração: 1h35.


